Buenos Aires, 13 (AE) - "Agente provocador." Com estas palavras a Câmara dos Exportadores da Argentina (CERA) qualificou nesta terça-feira (13) o chanceler brasileiro Luiz Felipe Lampréia. Além dos exportadores, Lampréia também recebeu duras críticas da União Industrial Argentina (UIA).
As duas associações empresariais acusam o chanceler brasileiro de estar ameaçando "aquartelar" a economia brasileira contra o "protecionismo" argentino. No entanto, Lampréia nunca disse isso.
Todo esse imbróglio foi causado por um erro de tradução do português ao espanhol na edição desta terça-feira no "ámbito Financiero", o jornal argentino que mais polemiza sobre o Brasil dentro da imprensa local.
Segundo "ámbito", Lampréia teria dito que "os lobbies protecionistas, particularmente da Argentina, são ativos e negativos em relação às exportações brasileiras do aço e açúcar. Isto nos coloca em um estado de aquartelamento".
No entanto, a frase de Lampréia, pronunciada em uma entrevista à Globonews, foi diferente: "Uma situação dessas (a situação pós-desvalorização do real) coloca os lobbies protecionistas, particularmente na Argentina...eles são especialmente ativos, negativos, no que diz respeito ao açúcar e ao aço, os coloca em uma posição de mais aguerrimento. Temos sentido isso com clareza e temos toda intenção de combater essa intensificação do protecionismo."
O jornal portenho não só traduziu "aguerrido" por "aquartelado", como também confundiu os personagens: em vez dos argentinos, são os brasileiros que se tornam os protagonistas. Um começo de crise diplomática causada por um erro de tradução.
Um diplomata argentino, ao ser consultado pela Agência Estado, lamentou: "aquilo de tradutore, tradittore (provérbio que se refere que todo tradutor é uma espécie de traidor do texto original) foi extrapolado aqui. O jornalismo argentino precisa ser mais responsável."
No protesto divulgado pela União Industrial Argentina (UIA), os industriais afirmam que leram "com estupor as declarações" de Lampréia que "advertiu que seu país combaterá as políticas comerciais protecionistas argentinas, endurecer as negociações entre os dois países e provocar um virtual aquartelamento de suas autoridades econômicas".
Segundo o comunicado da UIA, "este estupor transformou-se em indignação quando reconhece-se que o Brasil subsidia ilegitimamente suas exportações intra-Mercosul e aplica permanentemente restrições comerciais às importações argentinas. Além disso desvalorizou competitivamente sua moeda em 40%". Na declaração, a UIA afirma que "espera uma reação do governo argentino a uma situação que pode agravar-se em forma considerável e colocar nossos industriais em uma situação limite".
A Câmara de Exportadores foi menos sutil: "toda essa ação está direcionada a ameaçar a Argentina para que não tome decisões legítimas, que não interesam ao Brasil. É o clássico uso da estratégia da dissuasão". Segundo a Câmara, "Lampréia está se comportando como um agente provocador, e a Argentina não deve perder a classe nem o estilo".
Consternado, o secretário-geral da UIA, José Ignacio de Mendiguren, disse à AE que "tomamos a informação do jornal ¶mbito Financiero. Não estive na reunião que definiu o comunicado. Não tenho maiores informações sobre isso".
A confusão causada em torno às declarações do chanceler brasileiro coincide com a próxima reunião que os chanceleres Luiz Felipe Lampréia e Guido Di Tella terão segunda-feira em Brasília.

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