Empresa que produz papel moeda critica importação de dinheiro de plástico
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segunda-feira, 07 de junho de 1999
Por Cley Scholz 
São Paulo, 08 (AE) - No momento em que as indústrias nacionais desenvolvem uma campanha pela valorização do produto fabricado no Brasil, o Banco Central estuda a importação de 250 milhões de cédulas de plástico da Austrália para distribuição no mercado no ano que vem, em comemoração aos 500 anos do descobrimento.
A compra está sendo feita sem licitação, já que empresa australiana Securency é a única no mundo a fabricar o polímero utilizado para fabricação de dinheiro de plástico, segundo denúncia da Indústria de Papel de Salto, localizada em Itu, no interior de São Paulo, empresa que detém o monopólio da fabricação de papel moeda no País.
A empresa alega que o dinheiro de plástico é 30% mais caro que o nacional de papel. O custo da importação das cédulas é de aproximadamente R$ 22,5 milhões, contra R$ 15 milhões do dinheiro nacional.
A única fornecedora de papel de segurança para a Casa da Moeda é uma associação entre o Grupo Votorantim, do empresário Antônio Ermírio de Moraes e o grupo europeu Arjo Wiggins. A empresa faturou R$ 50 milhões no ano passado, produzindo também papel para cédulas de identidade e passaportes.
A fábrica foi constituída em 1977, em comum acordo com o governo, para produzir papel moeda necessário à confecção de cédulas nacionais em substituição ao material importado até então.
A empresa chegou a ser consultada para produzir as cédulas de cinco reais especiais, em comemoração aos 500 anos do descobrimento, no ano passado, e se propôs a produzir o material gratuitamente, segundo o diretor comercial da empresa, Michel Giordani. "Estávamos dispostos a contribuir com uma doação para os festejos, mas fomos surpreendidos com a informação de que o Banco Central vai importar cédulas plásticas", conta Giordani. "Esse tipo de cédula oferece maior risco de falsificação, além de ser mais cara que as cédulas de papel que fabricamos", afirma o executivo.
Riscos - O executivo disse que encaminhou ao governo um estudo sobre os riscos representados pelo dinheiro de plástico. Segundo o estudo, de um total de 90 bilhões de cédulas em circulação no planeta, apenas 100 milhões - 0,01% - são de plástico. Além da Austrália, o dinheiro de plástico circula em países como Nova Guiné, Kuwait, Singapura e Tailândia. "As cédulas plásticas não podem conter a marca dágua e nem a tarja magnética de segurança, e além disso não podem ser usadas em caixas eletrônicos", comenta Michel Giordani.
A empresa argumenta também que a cédula de papel convencional tem a vantagem de utilizar o algodão, que é uma matéria prima genuinamente nacional, biodegradável e reciclável. Segundo Giordani, a importação de 250 milhões de cédulas representa um risco para a Indústria de Papel de Salto, pois o volume equivale a 30% da produção anual da empresa.
Com o fim da inflação, o tempo de vida útil das cédulas em circulação no País aumentou 2,5 vezes, o que abalou a produção de papel moeda. Hoje as cédulas tem durabilidade média de 18 meses, e as encomendas da Casa da Moeda diminuíram de 2,5 bilhões de cédulas anuais para algo entre 800 milhões e um bilhão. A fábrica que empregava 600 funcionários hoje emprega 350.
"Em 92 fomos estimulados a investir para ampliar a capacidade para 4 bilhões de cédulas anuais, mas o real nos forçou a trabalhar com apenas um quarto da nossa capacidade", comenta Giordani. "A importação pode tornar a fábrica inviável."


