Empresa que fornecia carne de merenda de Cambé falsificava rótulo
Polícia investiga crime de estelionato de distribuidora de alimentos de Maringá que fracionava os cortes conforme os pedidos, mas não tinha autorização ou fiscalização devida
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 28 de março de 2019
Polícia investiga crime de estelionato de distribuidora de alimentos de Maringá que fracionava os cortes conforme os pedidos, mas não tinha autorização ou fiscalização devida
Pedro Moraes - Grupo Folha 

A desconfiança da nutricionista Izabel Arruda, responsável pela merenda escolar em Cambé (Região Metropolitana de Londrina), levou a Polícia Civil a fazer uma operação em uma distribuidora de alimentos de Maringá que falsificava os rótulos de procedência de carne bovina. O primeiro indício foi o cheiro e a aparência do lote entregue. Foi pedida uma nova porção, que chegou rapidamente, com as mesmas informações na embalagem. A partir daí, Arruda instaurou uma verdadeira investigação. Ligou para o Ministério da Agricultura e para o frigorífico, até que conseguiu as informações de que aquela empresa fracionava os cortes e embalava sem autorização e a devida fiscalização.
Na terça-feira (26), um furgão da empresa Duney Alimentos foi apreendido com 94 quilos de carne e outros 607 foram lacrados na sede, no bairro Jardim Olímpico, em Maringá. “Em princípio, estamos trabalhando com um caso de estelionato, que pode ser enquadrado em até cinco anos de detenção, mas ao longo das investigações isso pode ser alterado. Fica claro que a empresa mandava criar etiquetas em uma gráfica e terminava de preencher com novas informações, com o registro de um frigorífico. Com isso, obtiveram vantagens”, afirmou o delegado de Cambé, Roberto Fernandes de Lima.
Na delegacia, o responsável pela Duney Alimentos, Hederney Aparecido Alonso, foi prestar esclarecimentos e falou sobre a situação. “Assumo a responsabilidade. Usamos etiquetas que não poderiam ser usadas. Garanto que a carne não estava imprópria, apenas fracionávamos para cumprir a exigência da prefeitura”, explicou. Apesar de ser responsável por fornecer e entregar a carne, a empresa não foi a vencedora da licitação da Prefeitura de Cambé. Uma outra empresa, a TNG Distribuidora de Alimentos, firmou o contrato, mas funcionava apenas como intermediária – comprava a carne da Duney. “Agora precisamos ver como funciona essa estrutura. Essa empresa vencedora da licitação, inclusive, está instalada no mesmo bairro. Vamos checar se há uma ligação entre as duas”, questionou o delegado.
A Prefeitura de Cambé já está tomando as medidas administrativas necessárias para suspender o contrato com a TNG Distribuidora de Alimentos. “Tenho a preocupação de que a merenda fique desabastecida de carne bovina, por isso estamos vendo a possibilidade de fazer uma compra emergencial”, afirmou o prefeito José do Carmo Garcia (PTB), que exaltou o trabalho da nutricionista. “Ela não aceitou somente trocar um produto que não parecia bom. Ela foi com o espírito investigativo e contribuiu para resolver este problema. Nossos servidores estão sempre passando por trabalhos de capacitação e atualização e está aí um resultado”, disse.
O contrato de licitação firmado com a Prefeitura de Cambé tinha como garantia a procedência da carne, que deveria ser do Frigorífico Estrela. Foi exatamente o selo com a inscrição federal desta empresa que a Duney falsificou. Em nota, a empresa afirmou que acompanhará o desenrolar das investigações e cooperará com as autoridades policiais e que é de seu total interesse esclarecer os fatos. “É absolutamente inadmissível que crianças, principalmente aquelas mais necessitadas, sofram as consequências pelos atos de estelionatários ou quaisquer criminosos”, afirmou a empresa.
A TNG Distribuidora de Alimentos já participou de licitações em outros municípios da região, como Londrina, Maringá, Apucarana e Jandaia do Sul. Atualmente, a empresa tem contrato assinado com a Prefeitura de São Carlos do Ivaí, desde outubro de 2018, para o fornecimento de carne para merenda escolar. A proprietária Cíntia Gabriela Pestana afirmou que se sente tão lesada como a Prefeitura de Cambé e que irá tomar medidas legais. “Eu tinha boas referências da Duney e acreditava na idoneidade do trabalho. Eles são uma empresa que fornece carnes para vários estabelecimentos em Maringá e não tinha conhecimento de que agiam desta forma”, garantiu Pestana.


