São Paulo, 11 (AE) - Uma primeira empresa já ameaça entrar com ação na Justiça para exigir da Telefônica reembolso pelos prejuízos causados por falhas nas linhas. A Clariant, empresa do setor químico, ficou durante uma semana com os telefones mudos no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, e estima ter deixado de faturar cerca de US$ 1 milhão por dia.
A insatisfação com o atendimento da Telefônica é tão grande que dois executivos da Clariant chegaram a visitar a companhia de surpresa na segunda-feira, insistindo em serem atendidos pelo presidente Manuel Garcia-Garcia. Conseguiram a atenção do diretor de grandes clientes, Ézio Barbosa Cintra, depois de algum constrangimento pela presença de vários seguranças.
O gerente do Departamento Jurídico da Clariant, Alex Borges, e o gerente administrativo Moisés Ferreira deixaram a Telefônica sem um compromisso de solução para os defeitos nos cabos telefônicos que atendem a empresa. A Telefônica prometeu apenas a comutação do sistema de telefonia por rádio que a Clariant teve que instalar de emergência para atender aos clientes.
Segundo Borges, as dificuldades com o sistema de telefonia da Clariant tiveram início em 15 de janeiro e foram sendo reportadas à Telefônica com frequência. Finalmente, no dia 1º de março, todos os telefones do prédio emudeceram. Borges disse que ficaram prejudicadas outras onze empresas que alugam salas no edifício de propriedade da Clariant e que dependem da mesma rede telefônica.
A empresa decidiu, então, publicar anúncio no jornal Gazeta Mercantil pedindo desculpas aos clientes e fornecedores, apontando os "defeitos na rede operada pela Telefônica" e divulgando como números de emergência os telefones do sistema de rádio de uma coligada.
A solução emergencial encontrada pela Clariant de adotar um sistema de rádio próprio também enfrentou dificuldades. Para conseguir a comutação do novo sistema, os executivos da Clariant tiveram que ir pessoalmente à Telefônica. Borges relatou que foi preciso contornar a segurança para chegar à sala da Presidência da Telefônica. Os funcionários administrativos diziam que os executivos deveriam apresentar a reclamação pelos canais normais de atendimento. "A decisão era não sair de lá, senão ficaríamos sem uma solução", afirmou o advogado.
O interlocutor com os executivos, o diretor de grandes clientes da Telefônica, Ézio Barbosa Cintra, afirmou que o sistema de rádio digital para atender a Clariant estava sendo ativado ontem. Ele reconheceu que a solução foi agilizada depois da visita dos dois executivos. "Existem muitos problemas e estão todos sendo providenciados com velocidade porque têm grande impacto para as empresas", justificou Cintra.
A Clariant ainda não avaliou todo o prejuízo decorrente das linhas emudecidas, mas Borges já decidiu que vai apresentar à Telefônica um pedido de reembolso - inicialmente uma proposta de caráter apenas administrativo. Se a Telefônica se recusar a ressarcir o cliente, a Clariant vai entrar com ação na Justiça.
Cintra informou que nenhuma empresa solicitou ainda reembolso pelos muitos problemas que vêm ocorrendo com os telefones. A Telefônica já estuda, no entanto, criar o chamado "contrato de disponibilidade". Por esse novo tipo de contrato, as empresas pagariam tarifas diferenciadas pela garantia de confiabilidade total da rede telefônica. "Para 100% de disponibilidade da rede, teríamos que criar acessos completamente diferentes e caminhos alternativos para as panes"
disse Cintra.
Segundo ele, toda a infra-estrutura da Telefônica está sendo reformada para assegurar a confiabilidade total. "Utilizamos a melhor tecnologia do mundo, o melhor equipamento e sistemas de suporte", afirmou. "Isso vai começar a aparecer".
Cintra explicou que historicamente os investimentos foram feitos no sentido de expansão da rede, nunca de qualidade. "Mas em dois anos teremos a demanda atendida e aí a preocupação vai recair sobre a qualidade do serviço, mesmo porque teremos concorrência", falou.
Esse processo vai resultar a médio prazo numa redução de custos, segundo Cintra. "Passada a fase da demanda, vem a da qualidade, passada a da qualidade, vem a do custo", disse. "Vamos chegar a um ponto em que o diferencial de qualidade vai estar praticamente igual entre os concorrentes e, então, o diferencial vai ser a redução de custo caso por caso", prognosticou.

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