As emoções têm papel fundamental no aparecimento da doença arterial coronariana, e assim como os fatores de risco, devem ser consideradas no tratamento médico - é o que defende a doutora em psicologia clínica Bellkiss Wilma Romano, professora livre docente em psicologia clínica na Universidade de São Paulo (USP) e diretora do serviço de psicologia no Hospital do Coração da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP). Ela esteve em Londrina, na última semana, ministrando a palestra ''Componentes Físicos e Psicológicos da Doença Arterial Coronariana (DAC)'', a convite do Clube da Aterosclerose. O objetivo foi alertar especialistas para o papel das emoções nas doenças cardíacas.
Bellkiss ressalta que há os casos em que os aspectos emocionais nada tem a ver com a instalação da doença, como aquelas relacionadas com a anatomia do coração, ou decorrentes do Mal de Chagas, por exemplo, que é transmitida pelo barbeiro. Essas não dependem da personalidade do paciente. Mas, a hipertensão, por exemplo, tem total relação com o fato do paciente ser nervoso e viver sobre pressão.
Os fatores de risco para a doença arterial coronariana são bem conhecidos da população -pressão arterial alterada, tabagismo, obesidade, falta de atividade física e estresse. Mas, ao contrário do que se pensa, não é só o estresse que está ligado a fatores emocionais. A psicóloga ressalta que, em todos os outros fatores, há aspectos emocionais embutidos.
Na obesidade, por exemplo, a escolha pelo tipo de alimento e o quanto se come tem a ver com as emoções. Ela explica que a comida é uma fonte de prazer, e o fato de estar deprimido ou alegre influencia nas escolhas. ''É a mesma coisa do paciente que fuma, as razões são emocionais. Ele fuma quando está sozinho, para relaxar. Ou, aquele paciente que não faz ginástica, acreditando que é porque a academia é longe, e não porque tem baixa auto-estima'', exemplifica.
Ela alerta que nem os médicos se dão conta de todos esses fatores emocionais embutidos que colaboram para a instalação do mal, e que isso é essencial para que também o tratamento médico, depois da doença já instalada, tenha um bom resultado.
A psicóloga lembra que depois de uma cirurgia do coração, por exemplo, são muitas as restrições, como parar de fumar, de comer determinados tipos de alimentos, além do medo mesmo da morte, que leva a um movimento de revisão da vida. ''A aderência ao tratamento significa que tudo o que se propuser ao paciente, seja a cirurgia ou medicamento, não será eficaz se ele não fizer a sua parte'', ressalta.
O tratamento psicológico, defende ela, deve ter um sentido mais amplo e cuidar também da família. ''É preciso que os médicos prestem atenção no seu paciente, tentando entendê-lo globalmente, não só do ponto de vista físico, mas como um ser biopsicossocial. Todos nós temos um corpo, uma história e estamos inseridos em um local e o adoecer está ligado a um desses aspectos e vai repercutir nos outros'', argumenta.

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