Quem não gosta de ser abraçado ou de receber um carinho? É através dessa necessidade humana - o toque - que partilhamos grande parte das sensações da vida. Tocar e ser tocado, segundo alguns especialistas, pode ser tão essencial quanto respirar, e repercutir não só no comportamento, mas na saúde.
A psicoterapeuta corporal Márcia Sel, de Londrina, explica que, antes mesmo do nascimento, o feto já vivencia a experiência do toque, através da massagem que o líquido amniótico faz na lanugem (pêlos finos que recobrem o corpo). ''Massagem que vai estabelecer o vínculo mãe-bebê'', atesta.
Ela lembra que a pele é o órgão de maior extensão do corpo humano e é o que nos diferencia do resto do mundo. ''É um grande órgão de contato e de contorno'', ressalta. E é também um órgão de comunicação. Por isso, quando o bebê nasce, é através do toque que se restabelece o vínculo entre mãe e filho. ''Por isso é tão fundamental quanto respirar'', afirma.
A psicoterapeuta explica que, na fase adulta, doenças psicossomáticas, principalmente problemas de pele, podem ter origem na vida intra-uterina ou em algum trauma no nascimento, que atrapalhou o restabelecimento desse vínculo. ''Isso será somatizado na vida adulta. Na adolescência, por exemplo, problemas de pele como a acne podem estar 'dizendo' que há problemas inconscientes em relação ao toque. É uma forma que o corpo tem para se manifestar, ficando 'feio' para ninguém chegar perto'', explica.
O toque, segundo Márcia, é ''uma emoção genuína'' e fundamental para formar a personalidade da criança. ''Quando a gente fala de corpo, está falando de personalidade, e o toque está diretamente ligado a isso'', ressalta a psicoterapeuta.
Uma criança, por exemplo, que é alimentada, trocada, e tem todas suas necessidades fisiológicas atendidas, se não tiver o afeto vai desenvolver uma musculatura flácida, hipotônica. ''Serão pessoas de personalidade vulnerável, que não conseguem dar conta das coisas, que desistem fácil quando encontram um obstáculo, porque lhes falta 'consistência'', exemplifica.
Para a psicoterapia corporal, tudo que é vivenciado fica registrado no corpo. Por isso uma pessoa que teve atendida a necessidade de toque na infância, segundo Márcia, será aquela com um corpo harmônico. Não aquele corpo imposto pelos atuais padrões de beleza, ''mas um corpo gracioso, que mantém a vivacidade e vivencia plenamente as emoções e os prazeres''.
O contrário será um corpo desajeitado, sem graciosidade, onde a imagem corporal não condiz com a realidade do corpo, favorecendo o aparecimento de doenças como anorexia e bulimia.
Na idade adulta, lembra a psicoterapeuta, é o toque que traz intimidade para qualquer relação, seja entre casais, amigos e familiares. Cada toque pode passar uma mensagem diferente e ser facilmente identificada por quem recebe. Por isso, um assédio, por exemplo, pode não passar pela linguagem verbal, mas ser identificado como tal.
Ela acredita que no Brasil a idéia de liberalidade de relações é falsa, ''uma ilusão para lidar com o medo do toque''. ''É através do toque que se toma consciência de si e de outro, mas não é normal para o brasileiro, que tem pouca intimidade com o corpo, tocar'', afirma.

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