Dubai (AE-AP) - Para a maioria dos ocidentais, a única imagem do Islã é a dos militantes muçulmanos nas manchetes dos jornais e revistas. O governo de Dubai, decidido a ignorar estereótipos deste tipo, estabeleceu um centro designado a unir diferentes culturas. O projeto é único numa região onde os líderes tentam manter seus povos o mais distante possível dos estrangeiros.
"É nosso erro se os estrangeiros são ignorantes sobre nossa cultura e religião", diz o diretor do centro, Abdullah al-Serkal, que estudou administração nos EUA. "O contato com os outros e a disseminação dos conhecimentos depende apenas de nós mesmos. Convidá-los para as nossas casas é uma maneira de fazer isso".
Durante um recente almoço em sua casa, oferecido a estrangeiros, al-Serkal apresentou-se com seus trajes típicos e abraçou suas duas filhas pequenas, enquanto pacientemente explicava os intrincados assuntos sobre o Islã. Enquanto isso, mais de uma dúzia de estrangeiros, sentados em tapetes, serviram-se de fumegantes pratos e arroz e frango, além de saladas variadas, dispostos numa toalha plástica
Um dos convidados, o inglês Terence McLoughlin, admite que sua imagem dos muçulmanos era o estereótipo do fanático descompromissado, como os membros do exército do Taliban no Afeganistão, cuja interpretação estrita das leis impedem mulheres de frequentar escolas e de trabalhar. "Quando nós pensamos no Islã, pensamos no Taliban e no que eles fazem com as mulheres lá. Esse é o tipo de coisa que fica marcada na mente das pessoas, não a imagem de Abdullah com suas filhas, porque apenas poucas pessoas presenciaram este tipo de situação", afirmou.
A reunião na casa de al-Serkal é parte de um programa de almoços que acontecem duas vezes por mês criado pelo Centro Sheik Mohammed para o Entendimento Cultural. Desde que o centro foi aberto em dezembro, mais de 5 mil estrangeiros participaram dos programas, que incluem uma visita pelas mesquitas locais, um almoço e palestras sobre os princípios da cultura e da religião islâmicas. Documentário curtos sobre a peregrinação muçulmana, a vida no deserto e costumes locais também são apresentados no principal centro de operações da entidade.
Grupos de turismo, hotéis e multinacionais que têm escritórios em Dubai ou interesse em estabelecerem-se na região têm inundado o centro com pedidos de informações e programas de orientação.
O orçamento do centro é de 3.6 milhões de dirhams (US$ 1 milhão). Al-Serkal diz que tem 11 pessoas trabalhando no local
mas precisa de pelo menos quatro vezes este número para atender à demanda. O passeio mais popular do centro é o que leva a mesquita Jumeirah, uma marca da cidade. Não-muçulmanos não podem entrar em mesquitas em nenhum outro país do Golfo Pérsico.
Durante uma recente visita, mais de 20 estrangeiros tiraram seus sapatos na porta da mesquita antes de entrarem no ambiente fresco, claro e acarpetado, com suas altas cúpulas e enormes candelabros de cobre. Dois homens, sentados com as pernas cruzadas sobre o carpete cor de turquesa, olharam surpresos para as mulheres loiras, de braços nus, empurrando carrinhos de bebê dentro da mesquita. Os visitantes incluem não apenas europeus, mas asiáticos e indianos, adultos e crianças. O grupo formou um círculo ao redor de al-Serka numa pia na entrada da mesquita, enquanto ele explicava as ablusões antes das preces e mostrava como são feitas. Para purificar o corpo antes das orações, muçulmanos enxáguam suas mãos, boca, narinas e antebraços, limpam suas cabeças e o interior das orelhas com as mãos úmidas e lavam seus pés.
Então, al-Serkal faz sua orações. Primeiro em pé, depois ajoelhando-se e então colocando suavemente sua cabeça sobre o tapete de orações, enquanto recitava versos do livro sagrado do Islã, o Corão. A sessão de perguntas e respostas que se segue a esta apresentação, revela tanto a ignorância quanto o fascínio sobre o Islã. "As mulheres são admitidas nas mesquitas?", perguntou uma mulher. Sim. "O que acontece se você perder uma das cinco preces diárias?", quis saber outra. Você reza mais tarde.
"Uma das coisas mais importantes que nós fazemos é tentar satisfazer a curiosidade deles sobre nós", afirma al-Serkal. "Nós queremos diminuir o choque cultural. Eu sei o que eles sentem porque eu me senti entrando em outro mundo quando fui estudar pela primeira vez nos EUA".
Há um outro lado dos trabalhos do centro. Ele tenta ensinar os cidadãos emirados como lidar com estrangeiros, que representam três quartos da população de 2.4 milhões de habitantes do país. O centro recruta professores voluntários para seus programas nas universidades do país e oferece lições introdutórias sobre a maneira como as coisas são feitas no ocidente.
Kirsten Staab, uma alemã que estudou cultura islâmica e presta consultoria ao centro, diz que muitos cidadãos emirados têm seus próprios preconceitos sobre o ocidente que precisam ser ultrapassados. " Muitos dos habitantes temem influências negativas do ocidente e nós temos que explicar a eles que ele também podem aprender com o outro lado", afirma ela.

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