Campinas, SP, 28 (AE) - A maioria dos ecossistemas do Tocantins ainda não está protegida na forma de parques, reservas ou áreas de Proteção Ambiental (APAs). Como a avaliação da vegetação nativa intacta no Estado, através das imagens de satélite dentro do zoneamento agro-ecológico, revelou remanescentes importantes para a biodiversidade - fora das unidades de conservação federais e estaduais - a equipe de pesquisadores da Embrapa Monitoramento por Satélite sugeriu a proteção ambiental prioritária de 48 das 82 áreas detalhadas.
"Não entramos no mérito da forma jurídica de proteger estas unidades de vegetação, mas sugerimos preservá-las por representarem toda a diversidade ecológica atual do Estado e por seu potencial de preservação da biodiversidade num contexto de mudanças climáticas", explicou Evaristo Eduardo de Miranda, coordenador do zoneamento na Embrapa.
De modo geral, comenta o pesquisador, os parques e reservas brasileiros tendem a proteger mais as florestas, em detrimento de outros tipos de ecossistemas. Assim, os cerrados, campos, cânions, caatingas, banhados e mesmo o Pantanal Matogrossense estão pouco representados nas unidades de conservação. "Mas são ecossistemas igualmente importantes para a fauna, para a manutenção da biodiversidade, para a proteção aos mananciais e preservação da paisagem", acrescenta.
O zoneamento sugere proteger unidades como as Serras da Vaca Brava e Dourada, de campos rupestres (vegetação baixa sobre solo rochoso) e altíssima diversidade de espécies, ou as Serras Grilo e Batista, de campos limpos. Entre as sugestões estão ainda áreas de grande beleza paisagística, como a Serra de Kraholândia, as areias da Serra do Jalapão e as encostas na divisa com o Maranhão, de grande potencial ecoturístico. E, também, zonas de cerrado - ao sul de Darcynópolis ou junto ao rio Piranha - ou de tipos florestais não contemplados entre os parques atuais, como a floresta estacional às margens do rio Araguaia.
Efeito estufa - Algumas das 48 áreas prioritárias para a conservação, além de conter fragmentos importantes de vegetação nativa, obedecem a um certo alinhamento, no sentido Norte-Sul. Não é por acaso. Na verdade, esta é uma linha novíssima e pouco estudada da Ecologia, de preservação da biodiversidade a longo prazo, diante das perspectivas de mudanças climáticas globais por causa do efeito estufa.
Seguem este raciocínio as sugestões de preservação dos últimos fragmentos florestais e cerrados do Bico do Papagaio, nas Serras do Caboclo e da Barriguda, norte do estado, uma linha formada pelas Serras do Cercado Grande e São Félix, a zona entre a Serra da Conceição e as morrarias do Grilo, Batista e Belo Horizonte, no centro do Tocantins; a Serra do Bananal, no centro-sul e os campos da Serra Dourada, no extremo sul.
Migração - "Na escala de tempo geológica a composição de espécies - flora e fauna - de uma região muda conforme variam as condições climáticas", diz Miranda. A principal mudança é latitudinal: se o clima global esfria ou seca, as espécies migram em direção ao Equador, se o clima esquenta, como está ocorrendo com o efeito estufa, as espécies migram na direção dos pólos.
Isso, naturalmente, numa situação em que as áreas intocadas pelo homem são contínuas. "Mas esta situação praticamente não existe mais no mundo", observa o pesquisador. "O que temos hoje é uma colcha de retalhos de áreas agropecuárias, cidades e fragmentos de vegetação natural e as espécies não têm mais como migrar, pulando a ocupação humana".
É preciso, portanto, manter corredores de parques e reservas, prevendo esta lenta migração. Por que a alternativa atual - de unidades de conservação ilhadas em meio a culturas e cidades - levaria à extinção em massa de espécies e a enormes perdas de biodiversidade.

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