Brasília, 29 (AE) - O embaixador do Suriname no Brasil, Rupert Laurence Christopher, disse hoje que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara pode estar sendo usada por grupos oposicionistas que tentam influenciar o resultado das próximas eleições presidenciais que acontecem em maio, naquele país.
Christopher negou as acusações feitas pela CPI do Narcotráfico sobre a existência de uma quadrilha de traficantes no país que agiria em nove Estados brasileiros e que contaria com o apoio de chefes políticos locais, até mesmo o dele. "O deputado Morani Torgan (PFL-CE) é um irresponsável e pode atrapalhar a boa relação existente entre os dois países", disse.
"Informações importantes como essas devem ser investigadas em sigilo; qual o motivo de elas virem a público sem provas conclusivas?", questiona.
O embaixador adiantou também que o ex-ditador do país, Desi Boutherse, que comandou o governo entre 1980 e 1987, não deve ser candidato nas próximas eleições. Boutherse é acusado pela polícia holandesa de chefiar uma quadrilha de traficantes e deve ser julgado pelo crime em abril. O embaixador foi ministro da Defesa do ex-ditador, época em que foi acusado de ter assassinado um militar. "Os membros da CPI chegaram a citar um livro onde eu seria acusado de ter cometido um homicídio", contou. "Esse livro foi escrito por um ex- terrorista, que, na década de 80, participava de um movimento que tentava derrubar o governo; como podem levar esse depoimento parcial em conta?", pergunta.
Christopher garantiu que gostaria de dar esclarecimentos aos deputados membros da CPI, mas exige que o contato seja feito por intermédio do Itamarati. A deputada Laura Carneiro (RJ), no entanto, disse que os deputados tentam convocar o embaixador há pelo menos seis meses, sem sucesso. Christopher disse também que deseja se encontrar com o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), para lhe cobrar o que ele chama de "irresponsabilidade cometida por Torgan".
Torgan, que está no Paraná com os outros membros da CPI para investigar a ação de traficantes no Estado, disse que a investigação sobre o cartel do Suriname é feita em conjunto pela CPI, pelas Polícias Federal (PF) e holandesa. Ele diz que a quantidade de documentos que comprovariam a existência do grupo agindo no Brasil é suficiente para que a acusação se torne pública. "Fizemos inúmeros cruzamentos telefônicos, colhemos o depoimento de um dos principais traficantes do grupo, além de termos um vídeo em que autoridades do país se encontram com membros da quadrilha", diz Torgan.
"Quando o embaixador decidir prestar esclarecimentos à CPI, tudo deve ficar ainda mais claro."