Embaixada do Mercosul cria conflitos no Itamaraty
diz Alaby. Para ele, os precedentes argentinos vão permitir também o estabelecimento de quotas ou barreiras por parte do Brasil, como no caso do arroz. "Isso é uma volta ao regime de adequação e de quotas, que significam mais protecionismo no bloco, o que preocupa", adverte o executivo da Adebim. Outro aspecto a ser levado em conta nessa disputa de poderes no Itamraty é que a agenda externa do Brasil transcende à do Mercosul, que, como união aduaneira, tem outras responsabilidades no âmbito extra-bloco. Algumas áreas de responsabilidade da Embaixada do Mercosul, por exemplo, invadem a fronteira do Departamento da Assuntos de Integração, Econômicos e de Comércio Exterior. "Não se pode dividir o Mercosul dos assuntos de integração, já que o contexto das negociações hoje é mais amplo e diz respeito aos interesses do bloco, tanto dentro como fora dele", acrescenta Alaby. Para ele, integração não se faz com o ganho individual de um país, mas com o ganho adicional de países.Por Vladimir Goitia São Paulo, 25 (AE) - A recente criação do cargo de embaixador para o Mercosul fez surgir uma "zona cinzenta" no Itamaraty, que pode provocar uma série de conflitos de poder entre os responsáveis pelas negociações comerciais do Brasil, dentro e fora do bloco regional. Na última terça-feira, o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Sebastião do Rego Barros, deixou evidente que a divisão entre nacionalistas e liberais no alto escalão do governo pode estar se estendendo ao Itamaraty. De acordo com Barros, o Brasil estaria disposto a ouvir, negociar e até fazer concessões à Argentina para proteger alguns setores daquele país que foram prejudicados com a desvalorização do real, em janeiro do ano passado. As declarações do embaixador brasileiro na Argentina, alinhadas às do recém-empossado embaixador do Mercosul, José Botafogo Gonçalves, vão em direção oposta às últimas diretrizes do governo brasileiro no Mercosul e na OMC sobre as medidas protecionistas argentinas impostas contra têxteis, calçados, aço e a alguns tipos de carne, como frango e porco. A posição adotada por Barros, a mesma que deve tomar o embaixador do Mercosul, começa a preocupar o setor privado do País, já que, há mais de dois anos, principalmente no decorrer do ano passado, ficou claro que o Brasil não aceitaria pressões da Argentina e muito menos imposições de barreiras (tarifárias ou não-tarifárias) que vão contra as regras de livre comércio, determinadas pelo Tratado de Assunção. "A falta de consenso na diplomacia brasileira irá, inevitavelmente, prejudicar o setor privado", diz Michel Alaby, secretário executivo da Adebim (Associação de Empresas Brasileiras no Mercosul). Para ele, declarações exageradas em defesa do Brasil ou em pretensa defesa da Argentina acabarão sempre prejudicando os setores mais interessados. "O conflito de opiniões ou de posições é comum em qualquer setor, mas o objetivo sempre será o mesmo", disse uma fonte do Itamaraty, tentando minimizar as divergências que começaram a pipocar com a criação da Embaixada do Mercosul. Ocorre que, a partir de agora, o embaixador Botafogo será o único responsável e interlocutor sobre "assuntos Mercosul", até então sob responsabilidade do Departamento de Assuntos de Integração, Econômicos e de Comércio Exterior. Os conflitos comercias que até então eram tratados, discutidos e negociados por pessoas de nível técnico, consideradas de altíssimo nível pelo setor privado, passaram agora às mãos de diplomatas com "faro" político, afirmam interlocutores empresariais. "Não vejo por que os assuntos de integração devem ser tratados de forma independente no âmbito dos embaixadores", acrescenta Alaby. "Os objetivos são os mesmos, o de fortalecer o Mercosul e a busca de um melhor relacionamento com a Argentina", disse um diplomata da chancelaria brasileira. A declaração do diplomata se alinha à do embaixador em Buenos Aires, mas não satisfaz a outra ala do Itamaraty. "A visão do embaixador Sebastião do Rego Barros pode ter nuances que escapam daquelas de quem está na Capital", afirma outra alta fonte do governo, insinuando que as decisões são tomadas em Brasília e não em Buenos Aires. Alaby lembra que os regimes de adequação, que beneficiaram setores produtivos dos quatro países do bloco, acabaram em dezembro de 1998, razão pela qual não existem motivos legais para estendê-los. "Para evitar esses contenciosos, como os do ano passado com a Argentina, deveriam ter sido criados mecanismos de transição, mas naquela época e não um ano depois"





