Em uma década, extrema pobreza caiu 63% no País
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
Celso Felizardo <br> Reportagem Local
Londrina A geladeira da recicladora Rita de Cássia de Souza, de 44 anos, já está cheia para a ceia de Ano Novo. Em uma casa simples na Vila Marízia, no extremo norte da região central de Londrina, ela vai receber seis filhos e sete netos para comemorar a chegada de 2016. Rita se lembra que até pouco tempo atrás, nem tudo era festa. Há pouco mais de uma década, o pouco que tinha para comer vinha de esmolas que os filhos ganhavam nos semáforos no centro da cidade.
A família de Rita de Cássia faz parte dos brasileiros que conseguiram abandonar a situação de extrema pobreza na última década. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre 2004 e 2014, a taxa de pobreza extrema no Brasil teve uma queda de 63% quando se consideram as pessoas que vivem com até R$ 70 por mês e um recuo de 68,5% na linha de até R$ 77 mensais. Esse índice teve uma redução média de 10% ao ano.
Em 2004, a extrema pobreza abrangia 6,70% da população, sendo que o índice medido em 2014 caiu para 2,48%. O estudo "PNAD 2014 Breves Análises", divulgado ontem pelo Ipea, mostra que entre 2013 e 2014, a taxa de pobreza extrema caiu 29,8%, uma redução importante cujas causas estão associadas, segundo o autor, à permanência do aumento da renda e redução das desigualdades. A análise tem base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Entre os motivos apontados pela recicladora que a fizeram a abandonar a extrema pobreza, ela cita dois: o Bolsa Família e o trabalho na cooperativa. "Chegaram a desligar a água da minha casa. Graças ao benefício consegui pedir o religamento na Sanepar. O próximo passo foi conseguir um emprego", lembrou. Hoje ela está estabilizada em uma cooperativa de recicladores na vila onde mora. O barraco onde morava deu lugar a uma casa equipada com móveis e eletrodomésticos.
O novo ano vai marcar uma nova fase na vida de Rita de Cássia. Com maior faixa de renda e os filhos deixando a idade escolar, ela deixa de receber o benefício do governo federal. "Esse ano foi difícil, mas consegui me firmar. Quero agora que esse dinheiro do Bolsa Família ajude outras pessoas que estão em uma situação pior que a minha", comenta. "Quem critica o programa não sabe do que fala, não sabe que a fome dói", completa.
Segundo o diretor do Departamento de Estudos e Politicas Sociais do Ipea, Rafael Osório, a redução da extrema pobreza está associada à permanência do aumento da renda e redução das desigualdades. "O aumento da renda média conjugado à redução da desigualdade favoreceu a redução da pobreza", concluiu. O autor também cita o incremento dos valores médios despendidos no programa Bolsa Família, a difusão de direitos como o Benefício de Prestação Continuada e o aumento da cobertura previdenciária.
A redução da pobreza extrema foi combinada com a redução da desigualdade da renda, analisa pelo PNAD. O índice de Gini (medida de distribuição de renda) do rendimento do trabalho recuou de 0,495 em 2013 para 0,490 em 2014. Quanto mais próximo de zero, mais igualitária é a distribuição da renda no País. Apesar das menores reduções de desigualdade terem sido registradas no Nordeste, a região Sul foi a que apresentou a menor desigualdade. No Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o índice Gini caiu de 0,453 para 0,442 em um ano.
O estudo pondera, no entanto, que a velocidade das transformações sociais nos últimos anos poderia ter sido maior, "especialmente nos grandes temas da desigualdade". Apesar de vislumbrar alguns efeitos da crise em 2014, ainda não foi possível medir o impacto dela. Essa análise, segundo o Ipea, poderá ser feita com maior precisão em meados de 2016, quando forem divulgados os dados de 2015.