Caracas, 01 (AE-NEWSWEEK) - Nem todo chefe de Estado em visita a Washington interromperia uma agenda carregada de conversações de alto nível para jogar softbol. Mas Hugo Chávez, de 45 anos, pode ser tudo, menos um político excepcional.
Na semana passada, em certa tarde de verão (no Hemisfério Norte), fazendo breve parada no Colégio Interamericano de Defesa do Exército dos Estados Unidos, o presidente venezuelano trocou seu terno por um uniforme de listas brancas. Ele disparou uma bola pela linha do campo direito, deu a volta e marcou, depois assumiu o montículo no fim do turno enfrentando cinco batedores membros do pessoal do colégio, perdendo pontos em duas tacadas.
Logo ele precisou pendurar a luva e partir para um encontro com James Wolfensohn, presidente do Banco Mundial. Mas, antes de a comitiva partir às pressas, Chávez parou para ouvir um coro de mães e crianças venezuelanas que cantavam canções patrióticas em sua homenagem. "Que mais posso pedir?", perguntou. "Estar aqui em Washington ouvindo a música dessas senhoras venezuelanas - isso é felicidade."
É melhor que Chávez a aproveite enquanto pode. Sua eleição à presidência por esmagadora maioria foi uma assombrosa reabilitação para o tenente-coronel cassado, que passou dois anos na prisão depois de chefiar uma sangrenta tentativa de golpe em 1992.
Sua vitória nas urnas provocou em Washington e noutras cidades o receio de que a Venezuela talvez descambasse para o governo autoritário, com sua fé na democracia destruída por quatro décadas de corrupção desenfreada.
Em agosto, os receios assumiram novo caráter de urgência quando partidários e adversários do presidente discutiram ruidosamente fora dos salões do Congresso venezuelano e a polícia de Caracas impediu que legisladores de oposição ocupassem seus gabinetes.
Tão logo a agitação abrandou, Chávez voou para Nova York e Washington para as importantes reuniões da semana passada com o presidente Bill Clinton, banqueiros internacionais, parlamentares norte-americanos e investidores estrangeiros.
O ex-soldado empenhava-se em garantir a todos os céticos que houvesse entre eles que não é um ditador enrustido. "Dizemos a essas pessoas preocupadas que um processo ampla e profundamente democrático está ocorrendo na Venezuela", declarou Chávez recentemente à Newsweek. "A Venezuela começa a sair de um aperto, e o faz com paz e democracia."
Na Venezuela, sua postura não é tão defensiva. Os eleitores venezuelanos continuam demonstrando sua confiança inabalável na liderança de Chávez. Em julho, eles elegeram uma assembléia especial para redigir a nova constituição do país: mais de 90% das cadeiras foram para os candidatos pró-Chávez, virtualmente fechando as portas à velha-guarda política do país e na prática dando ao presidente plena autorização para que reinvente as leis venezuelanas.
Nem a crise econômica que se aprofunda prejudicou Chávez nas pesquisas de opinião pública. Prevê-se que o Produto Interno Bruto (PIB) diminua até 9% este ano. O desemprego atingiu 20% e continua aumentando. Mas, ao fim de sete meses na presidência, Chávez tem um índice de aprovação popular acima de 70%. "Ele é um dos nossos, está tentando ajudar os pobres", diz um vendedor de bilhetes de loteria de 51 anos, Gladys Chacón. "Temos muita fé nele." Alguns críticos estrangeiros diriam que isso é fanatismo.
A popularidade de Chávez é fortalecida pelo flagrante desgoverno dos presidentes anteriores. Tendo reservas de petróleo só inferiores às do Oriente Médio, a Venezuela ostentou um dos maiores padrões de vida da América Latina depois que o preço do produto começou a subir, nos anos 70.
Mas a prosperidade transformou o país numa cleptocracia - e afinal mergulhou 80% dos venezuelanos abaixo da linha de pobreza.
Os presidentes ficaram cada vez mais atrevidos. Jaime Lusinchi (1984-1989) ofendeu seus anfitriões espanhóis levando sua amante a Madri para uma visita oficial. Seu sucessor, Carlos Andrés Pérez, foi mandado para a cadeia, acusado de corrupção, antes de conseguir terminar seu segundo mandato.
"A Venezuela precisava havia muito de uma séria limpeza", diz Eric Ekvall, ex-assessor de Lusinchi. "Chávez é um sopro de ar fresco por ser tão senhor de si." Sob muitos aspectos, o presidente parece os demagogos que agitavam as massas e dominaram a região nos anos 50 e 60. "Ele tem um discurso e um estilo que fazem lembrar as velhas figuras populistas", diz Michael Shifter, membro do instituto Diálogo Interamericano, com sede em Washington. "Nota-se o anseio por algo diferente e o fascínio por Chávez, porque ele encarna isso."
O passado militar do presidente - e sua jovem mulher loura - motiva comparações com Juan Perón, da Argentina. Críticos estrangeiros como o escritor peruano Mario Vargas Llosa menosprezam Chávez, achando-o um "personagem risível" cuja eleição apenas prova o profundo desespero da Venezuela.
Mas milhões de venezuelanos consideram seu presidente, o filho moreno de um casal de professores rurais, um libertador nacional
um herdeiro espiritual de Simón Bolívar, o herói nascido em Caracas.
Chávez é naturalmente excepcional. Nunca será confundido com um daqueles tecnocratas pálidos, formados nas famosas faculdades do nordeste dos Estados Unidos e considerados uma década atrás os novos rostos da liderança latino-americana.
Suas fotos e proezas forçaram a mídia norte-americana a notar que a Venezuela existe, após anos de desprezo calculado. Chávez não se furtou a exibir suas tacadas de efeito contra o forte Sammy Sosa numa aula prática de beisebol em Caracas, em fevereiro passado.
Mas também põe à prova sua firme posição no Departamento de Estado dos EUA. Ele incluiu Saddam Hussein e Muamar Khadafi na lista de convidados para a reunião de cúpula da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) do próximo ano em Caracas.
Ele não esconde sua amizade por Fidel Castro, que o recepcionou em Havana logo depois que Chávez foi libertado da prisão em 1994.
Até trocou correspondência com Ilich Ramírez Sánchez - o Chacal, notório terrorista venezuelano agora recolhido a uma cela na França, cumprindo pena de prisão perpétua por assassinato.
O que Chávez é de fato? Apesar de suas estreitas ligações pessoais com Castro, diplomatas norte-americanos dizem estar certos de que o presidente venezuelano não é marxista e lhe concedem o benefício da dúvida.
Declarando-se tenaz inimigo do "neoliberalismo selvagem" (englobe isto o que englobar), Chávez irrita-se quando alguém tenta identificá-lo como populista de esquerda. Pressionado por acusações de autoritarismo gradualista, ele até agora não proscreveu nenhum partido político nem fechou jornais.
Mas alguns de seus partidários mais ativos na recém-eleita Assembléia Constituinte tentaram interromper os trabalhos do Congresso controlado pela oposição e assumir seus poderes para investigar e exonerar juízes.
"Ainda é muito cedo para julgar Chávez", diz José Miguel Vivanco, da organização Human Rights Watch, com sede em Washington. "Os sinos de alerta estão tocando e vamos manter estreita vigilância sobre ele. Mas não existe um só caso evidente de violação dos direitos humanos que se possa apontar."
Você não perde por esperar, advertem os críticos de Chávez. A próxima constituição deve resultar em eleições ao Congresso por estes meses. Se sua popularidade não sofrer uma queda abrupta, o presidente vai ter um legislativo favorável ao governo no próximo ano. "Tudo o que ele quer é poder", argumenta Robert Bottome, editor do boletim semanal VenEconomy.
"Mas será apenas poder pelo poder, ou o coração dele está de fato fazendo com que o país funcione de novo? A dúvida persiste."
Alguns venezuelanos já falam em prorrogar em um ano o atual mandato do presidente e possivelmente emendar a legislação eleitoral para que ele cumpra dois mandatos consecutivos.
Enquanto isso, Chávez continua em campanha como se ainda não tivesse vencido. Toda manhã de domingo ele participa de um programa radiofônico de duas horas, respondendo às perguntas e queixas dos ouvintes.
Até mobilizou os militares de um modo que parece sob medida para fortalecer o controle que ele exerce sobre o poder. Chávez chama de Plano Bolívar 2000 a esse controvertido programa de trabalho cívico no valor de US$ 950 milhões em que emprega as forças armadas para prestar serviços sociais básicos e reconstruir a decadente infra-estrutura da Venezuela.
Quase 100.000 soldados participam no momento de uma vasta gama de atividades normalmente civis que vão da vacinação infantil e o reparo de pontes e rodovias danificadas até o patrocínio dos chamados mercados populares, onde venezuelanos indigentes podem comprar artigos de primeira necessidade a preços de pechincha.
Alguns venezuelanos dizem que tais projetos são um ardil para militarizar a Venezuela sorrateiramente. Outros aceitam o risco de bom grado. O bairro operário de Urbanización Colón, em Caracas, vai ter logo uma nova escola primária. A construção começou em 1987, mas o projeto ficou atolado numa série de exigências burocráticas e processos judiciais. Os trabalhos estavam parados havia cinco anos quando Chávez anunciou o Bolívar 2000. Quando os pedreiros finalmente voltaram ao trabalho em junho, o Exército despachou 15 soldados para se juntar à turma. Agora faltam só alguns dias para a cerimônia de inauguração.
"O povo aqui está muito satisfeito com o presidente e os soldados", diz a secretária aposentada María Teresa de Blanco. "Este país precisa é de mais disciplina. Não tenho medo de um regime militar."
Sem oposição política significativa, ainda assim Chávez tem pela frente grandes desafios. Ele precisa tirar a economia venezuelana de sua mais profunda depressão em épocas recentes.
E tem também a dura tarefa de fazer com que as enormes expectativas populares se reduzam muito. O mercado petrolífero em alta ajuda ao menos modestamente a abrandar a recessão, embora investidores estrangeiros ainda relutem, desconfiados não só do próprio Chávez, mas de sua heterogênea equipe econômica.
Um ministro é ex-guerrilheiro de esquerda; dois outros são professores universitários sem experiência anterior no governo.
Enquanto isso, a população inteira precisa ser mais realista. Numa recente pesquisa nacional de opinião pública, 82% dos consultados situaram a Venezuela como o país mais rico do mundo. Um número idêntico disse que o governo tem a obrigação de redistribuir a riqueza nacional - idéia nada tranquilizadora para possíveis investidores estrangeiros.
O verdadeiro teste deve vir se o presidente perder popularidade. Conseguirá ele resistir à tentação de convocar as tropas? Generais da ativa ocupam importantes cargos em seu governo, e Chávez diz que quer conceder o direito de voto a homens e mulheres fardados. Suas recentes medidas de austeridade não incluíram cortes reais no orçamento das forças armadas.
"Um soldado autêntico nunca deixa de ser soldado", declarou ele a um salão repleto de oficiais latino-americanos no Colégio Interamericano de Defesa, na semana passada. "Sejam quais forem as roupas que a gente veste, pouco importando o que a gente venha a fazer de si mesmo, o coração que bate no peito continua sendo o de um soldado." O futuro do país dependerá de como Chávez vai governar - com o coração ou com a cabeça.

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