Modismo, demonstração de status, maior comodidade para mãe e obstetra, medo da dor. Seja qual for o motivo, a opção pela cesariana tornou-se praticamente regra entre as mulheres brasileiras prestes a dar à luz, quando deveria ser exceção. Daí a reação de desconfiança e estranheza de muitos ao saber que Gisele Bundchen, a mais famosa e mais bem paga modelo brasileira, resolveu ter seu primeiro filho, Benjamin, na banheira de sua casa em Boston (EUA), apenas com a presença do marido, da mãe e de uma parteira.
Por lá, provavelmente poucos estranharam a opção de Gisele. Nos Estados Unidos e em outros países desenvolvidos cesáreas ficam restritas a emergências que coloquem em risco a vida da mãe ou do filho. No Brasil a situação é inversa, e alguns fatores contribuem para isso, como o valor pago aos médicos pelos convênios, igual para os dois tipos de parto (mesmo que a cesárea, quase sempre, dure menos tempo e possa ser programada). Ficam assim relegadas a segundo plano as vantagens do parto normal, como o menor risco de infecções.
Opções como os partos na água, de cócoras e domiciliares são ainda mais raras, e mesmo quando a mulher está decidida a adotar uma destas alternativas, encontra empecilhos no sistema de saúde. Foi o caso da missionária Magridt Gollnick Rodrigues da Luz, que sonhou com o nascimento de seu primeiro filho, Mikhael (hoje com três anos), na tranquilidade de sua casa, mas esbarrou no alto custo. ''O parto domiciliar exige uma infraestrutura de apoio ainda muito cara'', revela, lembrando que também se deparou com a resistência ao parto normal no sistema privado de saúde.
A opção da família, então, foi pela Maternidade Municipal Lucilla Ballalai, que oferece atendimento baseado no princípio do parto humanizado. Ela lembra que foi um parto bastante ativo, com uso de várias técnicas para alívio da dor e o máximo de permanência em casa. Mas embora o nascimento de Mikhael tenha sido bastante tranquilo, contou com algumas intervenções que não estavam nos planos de Magridt, como a episiotomia (corte cirúrgico no períneo, para facilitar a passagem da cabeça do bebê) e a posição de litotomia (deitada de costas).
O segundo parto da missionária foi mais rápido e do jeito que ela queria. Matheo, de quatro meses, nasceu com sua mãe na posição de cócoras, sem intervenção e sem anestesia. Magridt aproveitou a oportunidade para usar a cama de pré-parto, parto e pós-parto (PPP), que permite o parto verticalizado (com a mulher semi-sentada ou de cócoras). ''Foi um parto fácil, durou cerca de quatro horas'', conta.
Magridt lembra que, fisiologicamente falando, o organismo feminino é preparado para o parto normal. ''Mas parece que as mulheres esqueceram que têm esta capacidade e passaram a exigir cada vez mais da estrutura hospitalar.'' As experiências gratificantes dos nascimentos dos seus filhos levaram-a a criar um blog (www.maesnoreino.blogspot.com), onde incentiva outras mulheres a optar pelo parto normal e esclarece dúvidas.
Para Marília Bittencourt Mercer, uma das coordenadoras do Grupo Gesta Londrina, ''não adianta falar que não vai doer, é claro que vai. Mas também não adianta ficar aterrorizando''. Ela lembra que existe toda uma cultura em torno da dor do parto, por isso é muito importante a mulher estar tranquila e preparada. ''A dor existe, já o sofrimento é opcional'', argumenta.
Segundo a coordenadora de enfermagem da Maternidade Municipal, Cilene Maria Martins dos Santos, embora 70% dos partos realizados na instituição sejam normais, os chamados alternativos não são rotina. ''Às vezes acontece de fazermos parto no chuveiro (para aliviar a dor), no quarto e até de cócoras. Mas aumentar o número destas ocorrências ainda é um 'sonho de consumo' para nós'', diz Cilene.

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