Em nome da fé
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sábado, 20 de fevereiro de 2010
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Elas são vistas, muitas vezes, como mulheres fechadas, que usam um hábito longo até nos dias mais quentes e passam a vida rezando. Uma vida cheia obrigações e nenhuma diversão. Mas engana-se quem crê que a vida religiosa é um escape da realidade: abdicação e fé são sentimentos comuns às freiras.
É difícil para muitas pessoas entender o chamado interior e aceitar tanta abdicação até conhecer de perto a vida num convento: abandonar família, cidade, país para colocar o próximo sempre em primeiro lugar, dividir casa e comida com desconhecidas, estar preparada para mudar de rotina a qualquer momento, seguindo ordens superiores, são alguns dos tantos sacrifícios que a vida religiosa impõe.
Enquanto as missionárias levam uma vida praticamente igual a dos leigos, exercendo profissões, atuando diretamente na comunidade e até viajando pelo mundo, com direito a férias, as religiosas de vida contemplativa vivem o silêncio. Toda a rotina é regrada por horários pré-determinados e os trabalhos domésticos e artesanais são intercalados com momentos de oração. Elas vivem de doações e do pouco que recebem com a venda de artesanatos sacros produzidos no intervalo das preces.
Cada congregação, seja de vida ativa ou contemplativa, tem atividades específicas, de acordo com seu carisma fundacional e etapas formativas. ''Por carisma, entende-se dom. É a irmã que escolhe o carisma, ao sentir o chamado. Ela decide pela congregação que mais destaca as qualidades que ela já tem'', justifica a irmã Kedma Soares, coordenadora do Núcleo da Conferência dos Religiosos do Brasil de Londrina.
Segundo ela, em Londrina, vivem, hoje, cerca de 350 religiosas de 23 congregações, que trabalham com educação, saúde, formação teológica, coordenação de pastorais, entre outras ações. Em todas as congregações, não há salários e os recursos obtidos pelas comunidades são divididos entre as irmãs, conforme as necessidades de cada uma.
Segurança
Religiosa da congregação Sagrado Coração de Maria de Berlaar há 25 anos, irmã Kedma se diz realizada com a escolha feita aos 16 anos, quando ainda morava numa fazenda em Três Marias, Minas Gerais. ''Até meus 15 anos não tinha batizado nem primeira comunhão ou crisma'', lembra a freira, que conheceu o catolicismo quando deixou a fazenda para estudar corte e costura na cidade.
''Em Três Marias, participei de um grupo de jovens e conheci as irmãs do Sagrado Coração de Maria. Elas me explicaram o que era a vida religiosa e me apoiaram na decisão de me tornar freira'', recorda a irmã Kedma, que se encantou com o jeito simples das freiras lidarem com o próximo. ''Foi o jeito afetuoso delas que me fez chegar mais próximo da religião. Não foi nada forçado e senti segurança para experimentar a vida religiosa até abraçá-la de vez.''
Desde que entrou na congregação, ela já foi motorista, porteira, secretária, tesoureira, catequista, professora e diretora de faculdade. Atua há dois anos em Londrina como diretora de uma escola infantil. Sempre com um sorriso no rosto, irmã Kedma não precisa do hábito para se fazer reconhecer como religiosa. ''Temos um jeito de manifestar diferente dos outros'', justifica a freira, que vive com outras duas irmãs da mesma congregação.
Desafio
De origem belga, a congregação Sagrado Coração de Maria de Berlaar reúne 80 irmãs no Brasil e cerca de 160 entre a Dinamarca e o Zaire. De carisma educacional, a congregação conta com sete unidades da Rede Berlaar de Educação no mundo, uma delas em Londrina. ''No ano passado, enquanto cinco irmãs desistiram do carisma, outras cinco adentraram a congregação, mostrando que as vocações, mesmo lentas, ainda acontecem'', diz a irmã.
Segundo ela, ainda hoje jovens se consagram à vida religiosa, apesar do consumismo desenfreado. ''Viver de forma radical os votos de pobreza, castidade e obediência torna-se desafiador. Muitas vezes sinto dificuldades, mas sou feliz a maior parte do tempo, por isso digo que estou realizada.''
Ainda de acordo com a irmã Kedma, a mulher exerce um protagonismo sem o qual muitas comunidades não subsistiriam, mas o sexo feminino, até mesmo no meio religioso, continua sendo vítima de preconceitos. Ela cita que há uma crise vocacional, que faz parte do contexto humano.
''Algumas pessoas, em estado de crise, tomam decisões acertadas ou irrefletidas. Umas descobrem que não se identificam com o carisma, outras que não possuem maturidade, segurança e confiança no próprio Deus, que chama para viver a opção feita, por isso acabam por desistir da vida religiosa'', conclui.
SERVIÇO
■ Irmãs Claretianas (43) 3339-0808; Irmãs Carmelitas (43) 3342-5405; Irmãs do Sagrado Coração de Maria de Berlaar (43) 3327-3527.


