Em Miami, treinar invasão a Cuba é programa de domingo Da enviada especial Monica Yanakiew
Miami, 08 (AE) - Os cinco homens, vestindo uniformes de camuflagem, avançam silenciosamente na escuridão do terreno baldio, em direção ao inimigo. Uma rajada de metralhadora sinaliza o início do ataque à base militar em Cuba. De repente, o comandante Jesus Hoyos ordena uma rápida retirada e o grupo corre até a lancha, que o levará de volta à segurança de Miami.
A operação foi bem-sucedida. Não houve mortos, nem feridos - até porque jamais houve um inimigo e o ataque contra uma pilha de pneus foi realizado longe do mar, na manhã de um domingo ensolarado. No domingo, o grupo Comando Alpha 66 executará outro plano para invadir Cuba no mesmo lugar: um campo de treinamento militar a 80 quilômetros de Miami, próximo ao Parque Nacional de Everglades, uma das atrações turísticas do Estado da Flórida. E Geraldo González, de 53 anos, estará lá.
"Treino quase todos os domingos, desde 1988, quando ingressei para o Alpha 66", diz González. "Tenho de estar preparado para o dia em que realizaremos nosso sonho e libertaremos Cuba da ditadura de Fidel Castro", explicou. O sonho de González é o mesmo dos 800 mil cubanos que vivem na Flórida. Mas a maioria deles não aposta numa invasão, liderada pelos guerrilheiros da Alpha 66 - homens e mulheres entre 18 e 80 anos.
A sede da organização clandestina, criada em 1961 por 66 exilados cubanos, fica na encruzilhada da Rua West Flagert e a Avenida 17, a dez minutos de carro do centro de Miami. As paredes da sala foram totalmente cobertas por fotos. Nas coloridas, jovens armados rastejam por terrenos pantanosos, cavam trincheiras e apontam fuzis russos AK-47 para um inimigo invisível.
No alto, fotos em preto-e-branco, amareladas pelo tempo, mostram os rostos dos cem mortos em 60 operações do grupo em Cuba. Entre eles, Luis Nazario Sarjem, assassinado em julho de 1970. "É meu sobrinho, filho de um irmão que também morreu", diz Andres Nazario Sarjem, o secretário-geral da Alpha 66.
Sarjem tem 80 anos e mede pouco mais que 1m50. Sempre sorridente, ele parece mais um avô carinhoso do que um perigoso guerrilheiro. Seus companheiros de armas, reunidos na sede, tampouco tem aspecto ameaçador. Um deles, vestindo uma jaqueta militar, está deitado sobre uma fila de cadeiras, dormindo. O outro, Miguel Pérez, conta que passou 17 anos preso.
"Lutei ao lado de Fidel Castro, na Revolução de 59, e morrerei lutando contra esse homem, que traiu seus amigos e assassinou seus inimigos", jura Pérez. Ele deixou de frequentar o acampamento militar. "Estou perdendo a vista e já não escuto bem."
"A vitória dos cubanos sobre a ditadura de Fidel não depende apenas da execução de uma operação militar - depende da nossa capacidade de manter viva a mística da guerrilha", explica Sarjem. "Quando há mística, as pessoas deixam de atuar racionalmente e agem com emoção", diz ele. É justamente isso que preocupa o governo dos Estados Unidos. Recentemente, um grupo da Alpha 66 foi para perto da costa da Flórida. A lancha deles transportava armas, destinadas à oposição a Fidel em Cuba. Mas o barco parou, por causa de um problema de motor.
"As autoridades que patrulham a costa nos viram e enviaram um barco para nos ajudar", conta Hoyos. "Viram um embrulho grande
coberto por um pano, e pensaram logo que eram drogas", explicou. Uma inspecção revelou que se tratava de granadas, metralhadoras e fuzis e, como a lei americano proíbe a exportação clandestina de armas, o grupo foi citado pela Justiça.
Fora do acampamento, Hoyos - que tem 37 anos e recebeu treinamento militar no Exército dos EUA - tampouco parece um guerrilheiro. Veste chapéu de caubói e cinto e botas de pele de cobra. Hoyos, ao contrário de muitos de seus companheiros, pôs seu treinamento em prática. Em 1995, participou de uma operação de sabotagem da indústria de turismo cubana. Saiu de lancha de Miami e, em águas internacionais, encontrou um barco carregado de armas que partira das Bahamas.
O objetivo era convencer os estrangeiros que não deviam investir dinheiro numa economia controlada por um ditador. Por isso, atiraram contra um hotel, no complexo turístico cubano de Cayo Coco. "Levamos 64 horas para montar uma operação que durou apenas um minuto", diz.
Para provar que a Alpha 66 existe e age, o grupo filmou a operação e entregou a fita a um canal de televisão. Foi o suficiente para que o FBI comparecesse na sede da organização, exigindo explicações. "Mas não tínhamos as armas, que voltaram para as Bahamas e destruímos a fita original", conta Hoyos com orgulho. Essa foi a última operação do grupo.





