Em Melissa, violência despertou o ativismo
A primeira vez que a transex Melissa se percebeu ''diferente'' das outras crianças foi aos quatro anos de idade, quando soube que as irmãs mais novas não tinham pênis. ''Eu me sentia igual à minha mãe, por isso, levei um choque quando descobri que, na verdade, meu corpo era igual ao do meu pai'', revela. Os conflitos decorrentes desta condição também começaram na mais tenra idade. Enquanto sentia-se odiada pelo pai, convivia com a crença da mãe, convertida a uma igreja evangélica, de que seria ''curada'' por Deus.
Na escola, episódios de violência faziam parte da rotina do menino com jeito e sentimentos de menina. Chacotas e agressões começavam na hora da chamada - quando os professores a identificavam pelo nome masculino - e estendiam-se até a hora da saída. ''Cheguei a ser chamada de 'mulherzinha' por um professor que queria me obrigar a jogar futebol. Uma diretora disse à minha mãe que eu tinha problemas mentais'', denuncia ela, que aos 11 anos foi espancada até desmaiar por meninos do colégio.
O fim da adolescência foi marcado pela permanência, por mais de um ano, em um ''espaço de recuperação de homossexuais'' de Curitiba, mantido pela igreja evangélica que a mãe frequentava. No controverso local, ao invés da ''cura'', viveu o assédio de muitos homens em abstinência sexual (a igreja mantinha também uma clínica para recuperação de usuários de drogas).
Quando acabou seduzida por um dos jovens, sentiu culpa. ''Achava que tinha destruído todo o tratamento'', contou ela, que vivenciou na clínica, também, a experiência de se apaixonar pela primeira vez. ''Aos 18 anos, percebi finalmente que não havia 'cura' para a minha condição. Foi então que decidi viver a vida.''
De volta para casa, foi em função dos maus tratos e das cobranças do pai para arrumar um emprego - que não vinha em função da aparência - que pela primeira vez pegou as roupas da irmã e ganhou as ruas para se prostituir. ''Assim perdi a virgindade. Com um desconhecido, fazendo programa.'' Logo depois, saiu de casa e assumiu a vida de prostituição. ''Passei a me dedicar à minha imagem. Foi quando a Melissa passou a existir'', recorda a transex que chegou a ser eleita Miss Travesti de Londrina.
Os bons momentos da vida na rua acabaram quando ela foi violentada e agredida por um suposto cliente, que quase a matou. ''O menino delicado da minha infância virou uma travesti violenta, e a rua se transformou em cativeiro'', diz ela, que após o episódio decidiu ganhar a vida na Europa, de onde só voltou porque o pai ficou doente. ''Fiquei ao lado dele até a morte. Finalmente nos reconciliamos.''
Casada com um italiano e possuidora de recursos que permitiram construir uma casa para ela e outra para a mãe, Melissa busca, agora, a realização pessoal proporcionada pelo ativismo político. ''Sentia-me hipócrita por ser feliz enquanto todas as outras continuavam sofrendo. Decidi abrir as portas da minha casa a quem precisasse de ajuda. Foi assim que surgiu o Elity Trans''.
O atendimento a pelo menos trinta transexs colocou Melissa, de novo, na mira da violência causada pela homofobia. Há dois meses, um incêndio criminoso quase destruiu a casa, que foi reconstruída com o empenho de todas as integrantes do grupo.
Para o futuro, ela planeja voltar a estudar e, quem sabe, dedicar-se à Sociologia.(C.A.)





