Pequim, 31 (AE-AP) - Em meio ao furor público provocado pelas bombas da Otan e acusações por parte de Washington de agressiva espionagem da chinesa, a China está tendendo a assumir uma posição mais confrontadora com os Estados Unidos.
Conservadores no governista Partido Comunista e altos comandantes militares - todos que tradicionamente vêem com suspeitas as intenções americanas - capturaram a revolta para pressionar líderes centristas a reavaliar a política da China para os EUA, disseram fontes governamentais e acadêmicos participando da revisão.
Os confrontos políticos e a genuína revolta causada pelo bombardeio da Otan contra a embaixada chinesa em Belgrado três semanas atrás, fizeram com que as vozes radicais saltassem para o primeiro plano e limitou a liberdade de manobra da liderança com Washington. No pior ambiente antiamericano em 25 anos, um ar de um conflito inevitável tem marcado os debates sobre as relações sino-americanas.
"A China está sendo empurrada para a posição de inimigo", disse Gao Heng, um acadêmico conservador. "A China não quer ser a segunda União Soviética".
Em risco nessas deteriorantes percepções estão muitas questões importantes em ambos os lados - da promessa de ampla cooperação que os presidente Jiang Zemin e Bill Clinton fizeram no ano passado até a expansão do comércio e a persuasão da Coréia do Norte a afastar-se de sua posição beligerante.
Depois que uma comissão parlamentar de inquérito dos EUA acusou um afrouxamento na segurança por supostamente permitir que a China roubasse segredos de armas nucleares dos EUA, Clinton disse que se mantém comprometido em trabalhar com Pequim. Em contrastre, Jiang, num discurso transmitido para todo o país, chamou os Estados Unidos de um tirano global buscando dominar o mundo.
Por enquanto, Jiang e seu premier reformista, Zhu Rongji, estão esperando que Washington cumpra as exigências impostas depois do bombardeio em Belgrado que matou três jornalistas chineses em 7 de maio. A China quer uma investigação e punição dos responsáveis. Ela também quer a suspensão dos ataques aéreos da Otan contra a Iugoslávia.
Se as demandas não forem inteiramente atendidas, a China "terá de estudar seriamente" suas opções, afirmou Gao, um especialista em estratégia internacional da estatal Academia Chinesa de Ciências Sociais.
Uma variedade de opções, não todas antiamericanas, estão sendo defendidas por acadêmicos e políticos que eles assessoram na revisão da política para os EUA, disse Xin Bo, um especialistas em assuntos internacionais na principal escola de treinamenton do Partido Comunista.
Mas o debate está preso num turbilhão de reclamações sobre recente comportamento dos EUA que muitos chineses acreditam prova que os Estados Unidos querem frustrar as ambições da China de uma potência emergente.
Entre as queixas estão o bombardeio da embaixada, que é visto como uma tentativa de silenciar a oposição de Pequim à guerra; a renovada aliança militar dos EUA com o Japão; conversas sobre colocar o rival Taiwan sob um sistema de defesa antimíssil; e a recusa de deixar a China ingressar na Organização Mundial do Comércio, apesar das amplas concessões que Zhu ofereceu a Washington.
Então surgiram as acusações no relatório liderado pelo deputado americano Christopher Cox, um republicano da Califórnia
que a China aprimorou seu arsenal nuclear roubando segredos dos EUA por 20 anos.
"O relatório Cox é ainda mais importante. Ele reflete o que os americanos sentem sobre o povo chinês", afirmou Xin. "Isto é um tipo de insulto. Americanos consideram os chineses como uma opinião baixa".
Pequim tem rechaçado o relatório como uma fabricação e um instrumento para pintar a China como um inimigo enquanto Washington busca incansavelmente o domínio mundial.
"O mais importante objetivo na estratégia global dos EUA é como manter seu incomparável status de chefe supremo no século 21", escreveu na quinta-feira o Diário do Povo. "Os Estados Unidos estão usando meios políticos, econômicos, militares, culturais e outros para se expandirem globalmente e intensificar planos para construir um mundo unipolar".
Próximo ao comentário de primeira página estava uma reportagem sobre as forças de artilharia chinesas usando alto tecnologia para aperfeiçoar suas capacidades. Notícias sobre poderio militar têm sido proeminentemente divulgada em toda a mídia estatal - uma indicação de que as forças armadas estão tendo mais influência nas decisões políticas.
Dada a atmosfera, as agências governamentais chinesas têm estado relutante em reunir-se com diplomatas dos EUA. Um destacado centro de estudo cancelou um longamente planejado simpósio acadêmico sobre segurança na ásia Oriental co-patrocinado pelo governo dos EUA.
Deixando de lado a atmosfera tensa, Jiang e seus colegas disseram que continuam comprometidos em seguir reformas de livre mercado que tem elevado o padrão de vida e feito da China uma força regional. Eles sabem que relações amenas com os Estados Unidos, e o maior acesso a capitais e tecnologia que trazem, ajuda aquele processo.
"Os dois países compartilham muitos interesses importantes demais e a relação tem de continuar. Agora a questão é como superar as atuais dificuldades", disse Jia Qingguo, um especialista em Estados Unidos na Universidade de Pequim. "Os dois lados deveriam fazer esforços. Mas a bola está com os Estados Unidos".

mockup