Em Curitiba, venezuelanos buscam dias melhores
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domingo, 03 de março de 2019
Rafael Costa <br> Reportagem Local 
Curitiba - Os cerca de 90 venezuelanos que chegaram ao Paraná em fevereiro, em mais uma etapa de interiorização dos imigrantes que chegam todos os dias a Roraima, enfrentaram trajeto difícil. Sem dinheiro no bolso - às vezes, apenas com as roupas do corpo -, eles primeiro precisaram chegar à fronteira em meio a uma grave crise econômica, que torna uma viagem como essa uma medida que nem todos podem bancar. Já no lado brasileiro da fronteira, em Pacaraima, precisaram vencer o que foi, para alguns, a etapa mais longa de toda a viagem: os 200 quilômetros até Boa Vista - muitas vezes, a pé.

Foi assim para Efraim Gonzáles, de Caracas. Ele chegou ao Brasil em maio de 2017. Caminhou dia e noite por cerca de uma semana entre a cidade fronteiriça e a capital. Cumprida a primeira etapa, passou um mês sem teto, inicialmente vivendo de pequenos favores, vendendo latinhas para a reciclagem ou comprando itens baratos para revender. Já abrigado, chegou a conseguir comprar um celular para entrar em contato com a família, mas foi furtado durante uma crise de febre provocada por uma insolação. Ele chegou a Curitiba para começar do zero, aos 56 anos. Mesmo em meio a tantos infortúnios, ele diz, a escolha se justifica.
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"Não tinha emprego na Venezuela", conta. "A inflação vai crescendo, crescendo, e todos os empresários vão fechando. Porque investem e, quando vão comprar mais matéria-prima, ela já está mais cara do que o produto que haviam investido para produzir", explica.
Este não foi o caso de Deilideth Herrera, 29, que deixou Maturín, no Estado de Monagas, a cerca de 800 quilômetros da fronteira. Ela trabalhava como professora em uma escola particular, enquanto o marido era vigilante em uma empresa de segurança. Mesmo fazendo horas extras, contudo, os salários não venciam a escalada de preços. "Deixei meu país porque as crianças da escola de meus filhos já não estavam mais indo porque não tinham como comprar sapatos", lembra. "Às vezes meu filho tinha que ir com folhas soltas para escrever na escola porque não tínhamos o dinheiro para comprar seus cadernos. O dinheiro não alcançava. E, às vezes, não tínhamos como dar café da manhã ou almoço", conta. "Foi por isso que vim."

Deilideth chegou ao Brasil há cerca de sete meses. Ela vinha enviando o pouco que conseguia ganhar para além da própria subsistência para os dois filhos, de 8 e 2 anos, que ficaram na Venezuela com a avó. "Minha prioridade é trazê-los rapidamente. Tenho medo que meu filho de 2 anos já não se lembre mais de mim", diz.
O casal Elimar Brito, 24, e Luis Carlos Sanchez, 36, chegou já com os filhos de 8 e 4 anos de idade. Os pais começaram a temer pelas crianças quando o cardápio diário na Venezuela se limitou a sardinhas e mandioca - e, por vezes, um dos adultos tinha que deixar de comer.
"Queremos que nossos filhos tenham a oportunidade de estudar", afirma Elimar, apontando um dos filhos já uniformizado. "Mas temos fé que a Venezuela vá melhorar. Se Deus quiser, vai mudar o presidente e as coisas vão melhorar. Mas hoje, aqui, se vê que há mais possibilidades de ter um futuro melhor", explica.

INTEGRAÇÃO
Os três casos ouvidos pela reportagem chegaram no dia 15 à Casa de Acolhida Dom Oscar Romero, um abrigo mantido pela ASP (Ação Social do Paraná), na Vila Fanny, em Curitiba. Com eles, o número de venezuelanos trazidos ao Paraná com apoio da OIM (Organização Internacional para as Migrações) chegou a 406.
Em 90 dias, eles passarão por todas as etapas da chamada "integração" - o momento em que já conseguem andar com as próprias pernas - já empregados e com contrato de aluguel. A ASP os auxilia com a papelada, cartão transporte, matrículas, busca de emprego e suporte psicológico - item de importância central para que os imigrantes, forçados a deixar para trás seus familiares, suas casas e sua cultura, tenham forças para recomeçar.
Os resultados, segundo a coordenadora da casa, Maria Tereza Rosa, têm sido positivos. "Como são pessoas ávidas por viverem uma vida independente, eles buscam isso de uma maneira muito determinada. E isso faz com que eles acabem tendo um êxito maior que imigrantes de outras nacionalidades, também pela proximidade da língua", conta.
Da escalada da tensão internacional envolvendo seu país, eles pouco falam. Há preocupação com o fechamento da fronteira e perplexidade com o bloqueio da entrada da ajuda humanitária pela ditadura de Nicolás Maduro, mas pouco se expressou além da esperança por mudanças e recuperação da Venezuela. A atenção maior parece estar em se estabilizar economicamente, enviar ajuda aos familiares e iniciar processos para trazê-los ao Brasil.
"A verdade está à luz do dia. O que mais podemos dizer?", explica Rockmillys Basante, que chegou a Curitiba em dezembro, com a família. Todos conseguiram trabalho e seu filho mais novo já vai à escola. Ela tornou-se assistente social no próprio abrigo.
"Nos limitamos ao falar sobre isso. A situação política e social do meu país continua incerta. Mas, se há discordância, ao fim e ao cabo, uma coisa nos une: nossa cidadania. E se há algo que nos define é que somos pessoas de fé e esperança", destaca.
Perguntada sobre o que pensava sobre interferências recentes de nações como o Brasil em seu país, ela pergunta o que se deve fazer quando se vê a casa de um vizinho pegando fogo. "É assim que vejo o papel da comunidade internacional", diz. "A Venezuela, que abriu as portas para outros países no passado e recebeu seus filhos como se fossem seus, está pedindo a essas nações irmãs: não a deixem sozinha."


