Lucas dos Santos Soares, barbeiro: "Há seis meses meus dias têm sido especiais. Era uma pessoa que estava no fundo do poço e hoje estou bem"
Lucas dos Santos Soares, barbeiro: "Há seis meses meus dias têm sido especiais. Era uma pessoa que estava no fundo do poço e hoje estou bem" | Foto: Ricardo Chicarelli



Natal é nascimento, mas também pode ser renascimento. Para Lucas dos Santos Soares, 26, a comemoração deste ano será especial pela conquista de um sonho e uma vida melhor. A transformação começou em 2012, mas os frutos estão sendo colhidos agora. Morador da região leste de Londrina, Soares foi preso há cinco anos, e ficou 24 meses em detenção no regime fechado.

O tempo atrás das grades o fez refletir sobre seus atos. Quando saiu buscou escrever uma nova história. "Um amigo me ajudou e consegui um trabalho em uma empresa de parafusos e ferramentas como balconista. Fiquei bom tempo lá, porém queria algo melhor e resolvi sair", afirma. Na procura por um nova ocupação no mercado de trabalho, o jovem viu os desafios de não ter uma graduação. "Como não tinha muito estudo ou curso, não conseguia nada."

Com um filho - hoje com três anos - Santos começou a passar dificuldades financeiras, o que refletiu na relação com o pequeno. "No começo de 2017 teve um dia que meu filho falou que queria um pirulito e eu não tinha um centavo no bolso para comprar o doce para ele. Aquilo acabou comigo", relembra. Neste período, propostas para voltar ao mundo do crime surgiram, mas ele manteve-se firme no propósito de ter uma futuro de forma digna.

"Coloquei a cabeça no lugar e vi que muitos amigos tinham morrido ou estavam presos. Refleti que os caminhos que tinha, caso voltasse a cometer crime, eram esses. Pensei no meu filho e pedi para Deus 'abrir uma porta', pois não tinha o que fazer para poder pagar minhas dívidas e cuidar do meu filho", conta. Foi quando se interessou em fazer um curso de barbeiro, mas logo desanimou em razão do alto custo.

SALÃO IMPROVISADO

Com a indicação de alguns parentes, Lucas dos Santos Soares chegou até o Clube das Mães Unidas, entidade que estava oferecendo o mesmo curso, mas de forma gratuita. Após muita insistência, conseguiu uma vaga, o que foi motivo de comemoração e preocupação. "Tinha que comprar alguns materiais e não tinha dinheiro para isso. Tentei a sorte no banco para ver se tinha algo no PIS e descobri um valor. Com isso pude comprar os objetos para poder fazer o curso", afirma.

Feliz com a instrução, se propôs a cortar os cabelos de alguns amigos com dois meses de curso. Sem as laminas, recebeu os instrumentos de corte, junto com outras doações, de conhecidos. A ajuda foi tanta que resolveu abrir uma barbearia na área de casa. "Como não iria conseguir pagar aluguel, fiz um salão improvisado em casa. Terminei a formação e a partir disso comecei a cobrar bem barato. A clientela foi aumentando dia após dia", comemora.

REALIZAÇÃO

Trabalhando e conseguindo se manter com a barbearia, ele agora celebra o novo momento que está vivendo e as boas oportunidades que a função está proporcionando, principalmente em relação a seu único filho. "Há seis meses meus dias têm sido especiais, o que vai fazer desse Natal o melhor. Era uma pessoa que estava no fundo do poço e hoje estou bem. Recentemente consegui levar meu filho no shopping, comprei roupa, tênis e ele pôde brincar. A minha felicidade foi ver a alegria dele", emociona-se.

Já planejando 2018, o rapaz agora almeja construir um espaço próprio onde mora para poder atender melhor sua clientela. Enquanto o novo ano não chega, ele quer viver intensamente o agora, orgulhando-se do caminho que trilhou. "Desde o dia que deixei a prisão, saí uma pessoa nova e com outra mentalidade sobre tudo", afirma. "Quero encerrar os próximos anos, daqui para frente, igual agora: com a certeza que fiz a escolha certa." (P.M.)

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