Em abril, Fraga defendeu controle do capital especulativo
Representante da Fundação Soros no debate, Fraga apresentou o ponto de vista do "especulador" e alertou para o risco que as altas dívidas de curto prazo representam. Seria uma "bandeira vermelha". Falou da falta de credibilidade de alguns países, estimou que uma crise na América Latina demoraria cinco ou vinte anos para ocorrer e citou a lição aprendida de um ex-professor que agora está no governo. E sugeriu que os países divulguem toda a informação disponível sobre débitos de curto prazo.
Fraga debateu as lições que a América Latina poderia aprender com a crise dos países asiáticos com o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Michael Mussa, e com Joe Stiglitz, do Banco Mundial.
Num segundo debate, em dezembro passado, promovido pelo FMI, Fraga falou sobre a turbulência nos mercados financeiros, e chocou alguns dos participantes, que pediram explicações, com sua idéia de que há moedas demais no mundo. Citou o México, como exemplo, dizendo que o país não ganhou muito em ter uma moeda própria.
As duas últimas citações abaixo são deste seminário de dezembro de 1998 e todas as outras são de abril passado.
Financiamento externo - "Quando se olha nos anos 80, por exemplo, para a crise da dívida da América Latina, aprendemos uma lição: fazer empréstimos para financiar déficits não é uma boa idéia. Agora, olhando para o México em anos mais recentes, vimos que emprestar para financiar consumo também não uma boa idéia. Agora, olhando para o caso da ásia, aprendemos que emprestar para financiar investimento talvez também não seja
novamente, uma boa idéia."
O que o especulador olha - "Como um investidor, o que chama minha atenção é uma dívida de curto prazo grande. Há outras coisas também, mas uma grande dívida de curto prazo é uma evidente bandeira vermelha. Pode-se fazer uma longa lista de outras coisas, que podem pesar em algum momento, e nós temos de checar todas elas, porque estamos olhando para uma longa cadeia e não sabemos qual dos anéis vai quebrar, mas o que mais chama a atenção é a dívida de curto prazo."
Falta de consistência - "Há uma coisa que tem pouco a ver com crise asiática e outras crises que é transparência de informação. Realmente, acho que há informação suficiente, mesmo que se tenha de escavar para achar, mas a maior parte é pública. Até, por exemplo, no caso da intervenção Tailândia no mercado futuro, se você estivesse falando com operadores do mercado diariamente, você saberia o que estava acontecendo e o que era importante. Não tinha nada a ver com política cambial. Nós temos tido problemas com países que se alternam entre câmbio fixo, flutuante, com crawling, com bandas....que saem da política de bandas e depois voltam para as bandas. Se tiver tido isso tudo, é mais um problema de consistência. Não acho que seja algo contra o capitalismo, embora seja óbvio que não seria alguma coisa que nós iríamos defender."
Lição de antigo professor - "A administração de crise me lembra uma pequena estória que um ex-professor que agora é uma importante autoridade do meu País, costumava contar. Alguém perdido no interior da Irlanda abordou um sujeito que estava meio bêbado e perguntou: "Como faço para ir para Dublin?" No que o sujeito respondeu: "Não tenho a menor idéia, mas se quisesse ir para Dublin, certamente não começaria por aqui."
Timing da crise - "(...) se você estiver lidando com uma crise - e América Latina vai entrar em crise - e isso é só uma questão de tempo, talvez cinco anos, talvez 20, mas algum dia, isso vai acontecer, o que temos de aprender dessas experiências (asiáticas) é que é crucial restaurar a credibilidade e, para isso, acho que o que falta, em muitos casos, é um conjunto razoável de objetivos."
Mais fiscalização bancária - "As reformas estruturais ajudam, e isso me leva ao meu comentário final sobre necessidades a serem enfrentadas pela América Latina numa visão de longo prazo. Aqui, é evidente que melhores informações e mais transparência ajudariam. Ninguém pode discordar disso. Também é claro que uma fiscalização bancária melhor, regulamentação, incentivos melhores, tudo isso ajudaria. Isso não livraria a América Latina dos efeitos da crise asiática, mas acho que esse é um problema que deva ser enfrentado imediatamente. (...) Nós também precisamos melhorar as leis de falência, corporate governance...."
De olho em déficits - "No caso da América Latina, acho que uma coisa óbvia é que os déficits fiscal e de contas-correntes sejam tratados com cuidado, principalmente se eles estiverem sendo financiados com dinheiro de curto prazo. Essa é a primeira lição. É sempre útil lembrar que vulnerabilidade, em muitos caos, está associada a rolagens e déficits em conta corrente. E uma explosão de bancos, novamente, tem de ser monitorada de perto. Essa é outra bandeira vermelha, para nós, investidores."
Informações sobre curto prazo - "Acho que seria muito útil se os países começassem a revelar informações melhores sobre seus débitos de curto prazo. Esta seria minha primeira tentativa para evitar o problema de entrada de capital que parece preceder todas essas crises. (...) Um caminho para começar é deixar isto explícito, deixar as pessoas saberem que o débito total talvez esteja crescendo muito depressa e que isso possa ser demais. Em síntese, sugiro que a informação sobre o curto prazo seja muito cuidadosamente discriminada em débito de transações (trade debt), débitos bancários, etc. Acho que seria uma coisa muito boa a ser feita."
Por que não controle de capital ? - "E francamente, se tudo isso não funcionar (sugestões de abrir informações) - vamos supor que um país que esteja fazendo todas essas coisas corretas e esteja recebendo muito dinheiro do exterior -, alguém tem de pensar se não seria útil o controle temporário do capital de curto prazo. Muitas vezes, o controle acaba sendo permanente e provoca muitos problemas. Qualquer um que tenha trabalhado no Banco Central do Brasil - e eu vejo um dos meus ex-colegas aqui à esquerda - sabe que essa é uma coisa perigosa. Mas, novamente, é difícil argumentar que essa talvez não seja uma opção quando a situação está boa." Besteiras de políticos - "É muito comum que governantes agindo numa perspectiva típica de horizonte de curto prazo - o horizonte de seus mandatos -, façam algumas besteiras. Talvez tentem sustentar a taxa cambial apenas por mais alguns meses até que estejam fora do governo, coisas desse tipo." Muitas moedas - "Eu tenho a impressão - e não é mais do que uma impressão, uma forte impressão - que nós estejamos num mundo em que existam muitas taxas de câmbio, muitas moedas, e talvez nós estejamos tendo um overshooting de moedas, talvez mesmo tenha ocorrido uma explosão de moedas depois do existente em Bretton Woods. Talvez o Fundo Monetário Internacional possa ter o papel de pensar sobre isso e talvez passar a trabalhar com regiões para que tenhamos um menu menos exuberante de câmbios. (...) Podemos pensar sobre o México: tendo tido o direito de emitir sua própria moeda nos últimos 50 anos, não foi uma coisa exatamente boa. Esse é o ponto básico sobre o qual estou pensando. Mas acho que vai além disso e acho que deveríamos pensar, portanto, em ter menos moedas, já que os benefícios viriam de vários fatores. Um seria disciplina e credibilidade que viriam com história. E vocês sabem que é possível tentar isso do jeito antigo ou pode-se tentar juntar forças com alguns outros países. É uma idéia."
A íntegra do seminário em que Fraga participou em dezembro está na Internet, no endereço: www.imf.org/external/np/tr/1998/TR981201.HTM
A íntegra do seminário em que Fraga participou em abril, no endereço: www.worldbank.org/html/extdr/spring98/0415lacts.htmPor Rita Tavares São Paulo, 04 (AE) - Ao participar em abril do ano passado de um seminário promovido pelo Banco Mundial, em Washington, o presidente indicado para o Banco Central, Armínio Fraga, defendeu que, em alguns momentos, um país tenha de adotar o controle temporário do capital especulativo, embora seja uma medida perigosa, citando a experiência brasileira, como exemplo, desse risco.





