Jan Walter Stegmann, infectologista: “Tem muitos casos de sífilis diagnosticados, tratados, mas que não são notificados”
Jan Walter Stegmann, infectologista: “Tem muitos casos de sífilis diagnosticados, tratados, mas que não são notificados” | Foto: Ricardo Chicarelli

As ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) voltaram a ser uma preocupação no Paraná, seguindo a tendência nacional. Em apenas oito anos, as notificações de sífilis adquirida cresceram 130 vezes no Estado. É uma hiperendemia enfrentada por todo o País. Os números da doença, fornecidos pela Sesa (Secretaria Estadual da Saúde), são expressivos.

Em 2010, só quatro jovens de 15 a 19 anos contraíram sífilis. Já em 2018, o número saltou para 883. Só até março deste ano, foram 84 notificações para jovens com a doença. Para os adultos de 20 a 29 anos, em 2010, foram 20 notificações. Oito anos depois, o número subiu para 3.382, e, neste ano, até março, 354 casos foram confirmados.

O infectologista Jan Walter Stegmann, que atua no CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento) e no HC (Hospital das Clínicas) da UEL (Universidade Estadual de Londrina), comenta que os números não refletem a realidade, que é muito pior. “No Brasil existe uma subnotificação das doenças. Tem muitos casos de sífilis diagnosticados, tratados, mas que não são notificados. É subdimensionado, esses números são muito maiores”, relata.

Dados do Boletim Epidemiológico da Sífilis 2018 do Ministério da Saúde mostram o aumento na taxa de detecção da sífilis adquirida, que passou de 44,1/100 mil habitantes, em 2016, para 58,1 casos para cada 100 mil habitantes, em 2017. “No mesmo boletim,verificou-se que a sífilis em gestantes cresceu de 10,8 casos por mil nascidos vivos em 2016 para 17,2 casos a cada mil nascidos vivos em 2017. Já a sífilis congênita, passou 21.183 casos em 2016, para 24.666 em 2017. O número de óbitos por sífilis congênita foi de 206 casos em 2017, um aumento em relação a 2016, quando foram registrados 195 casos”, lembra a pasta, por meio de nota.

Não é só a bactéria da sífilis que preocupa, mas também o HIV. Stegmann, que atua em ambulatórios de ISTs e em seu consultório atendendo pacientes com o vírus, conta que tem visto “uma média de um a dois casos por semana” de soropositivos.

Em ambas as doenças, a maioria dos infectados é formada por jovens, que estão mais suscetíveis à contaminação, de acordo com o médico. “O jovem tem mais relações sexuais, então, ele tem uma chance maior de se contaminar.” A ausência do preservativo, é, para Stegmann, o principal motivo desse aumento de casos.

“As pessoas perderam o medo. Antes tinha-se o fantasma da gravidez, então usava-se camisinha para não engravidar. Depois surgiu a pílula e as pessoas pararam de usar preservativo. Mas, em seguida, veio o fantasma da aids, que era a doença fatal sem tratamento”, lembra.

O cenário atual é diferente. A aids é uma doença crônica controlável. Por conta disso, o infectologista justifica a “falta do medo”. “Hoje o jovem é mais impulsivo, aliado ao uso de drogas lícitas e ilícitas que tiram a inibição e a chance de proteção. Pessoas sob uso de drogas se cuidam menos em todos os aspectos, principalmente em relação ao sexo”, opina.

Mas, para Mara Franzoloso, responsável técnica pela divisão de DSTs da Sesa (Secretaria Estadual de Saúde), outro motivo para o aumento dos casos são as notificações mais frequentes, já que, após 2010, as unidades de saúde foram obrigadas a registrar a sífilis adquirida. “Na epidemia, existe um número razoável de casos e um aumento do número de um ano para o outro. Segundo o Ministério da Saúde, estamos em uma hiperendemia porque a sífilis aumenta, mas desde os primeiros casos o crescimento se dá de forma mais complexa, já que a notificação da doença se iniciou em 2010”, alega.

Franzoloso reconhece que há uma subnotificação e que existe aumento dos casos, mas que “outros fatores devem ser considerados, como o acesso ao diagnóstico e o número de casos detectados e conhecidos”. “Por isso encerramos 2018 com muito mais casos, porque em 2010 foi o início da notificação”, justifica. De acordo com Franzoloso, em 1986 só era notificada a sífilis congênita de transmissão vertical - transmitida para o bebê. Em 2005, o Ministério da Saúde achou necessária a notificação em gestante. O registro compulsório para a população geral veio só cinco anos depois.

Na 17ª Regional de Saúde, com sede em Londrina, foram dois casos de sífilis notificados em 2010, sete em 2011, 37 em 2012 e 482 no ano passado. “Mas claro que para não ter essa detecção da sífilis e do HIV na população jovem é importante frisar que eles têm que se cuidar mais, com o uso do preservativo. Cresce o número de infectados nessa população pela falta de segurança na relação”, aponta Franzoloso.

DOENÇA SILENCIOSA

A sífilis se divide em três fases. A primária pode passar despercebida. É causada pela bactéria Treponema pallidum, que tem um meio sutil para se disseminar. Entre 15 e 90 dias após o contágio, pode aparecer uma pequena ferida nas regiões genitais ou na boca. Há casos em que a ferida é imperceptível, como em cancros intravaginais, que podem, inclusive, serem confundidos com outras ISTs. “A pessoa pode ter o sinal com uma lesão, um cancro nos órgãos sexuais geralmente”, pontua Franzoloso.

Contudo, a lesão indolor some em alguns dias, sugerindo que a pessoa está curada e que pode voltar a ter relações sexuais. Mas, na verdade, isso significa que o estágio da doença evoluiu para a sífilis secundária, que é mais complexa, de acordo com o infectologista Jan Walter Stegmann. “É uma lesão que desaparece sozinha. Então às vezes a pessoa passa um creme e a lesão desaparece e acha que sarou, mas na verdade não. É a evolução normal do cancro.”

Segundo Stegmann, as lesões da cavidade oral podem ser confundidas com aftas ou feridas simples da boca, mas “na verdade são cancro sifilítico cheio de treponema que vai transmitir a doença”. A segunda fase surge entre mais 15 a 90 dias e pode parecer uma alergia e é quando a maioria dos infectados procura atendimento médico. Lesões vermelhas na pele, na palma das mãos e planta dos pés podem surgir. Mas, caso a doença não seja tratada nessa fase, ela passa por um novo período assintomático e pode se manifestar novamente, na sífilis tardia, até em décadas, com problemas graves como o comprometimento da válvula cardíaca e do sistema nervoso central. E ainda pode levar à morte.

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. | Foto: Folha Arte

O Ministério da Saúde ressalta que “o enfrentamento da sífilis no País é uma ação prioritária”. A pasta incentiva a realização do pré-natal precoce, ainda no primeiro trimestre da gestação, a ampliação do diagnóstico por meio de teste rápido, o tratamento oportuno para a gestante e seu parceiro e o incentivo à administração de penicilina benzatina, considerada o único medicamento seguro e eficaz na prevenção da sífilis congênita. Também há ações permanentes de educação para qualificação de gestores e profissionais de saúde”.

HIV POSITIVO EM QUEDA

No Paraná, embora o número de pacientes soropositivos tenha aumentado ao longo do ano, os números de aids estão reduzindo. “Isso também pela busca do diagnóstico. O Paraná é pioneiro na testagem rápida e há anos o Estado tenta fazer esse diagnóstico. A gente preconiza que qualquer pessoa que tenha tido comportamento de risco procure uma unidade de saúde para fazer diagnóstico”, comenta Mara Franzoloso. Ela alerta que o conhecimento da doença é importante para “poder conviver com o HIV e não adoecer”.

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil chegou aos 30 anos de luta contra o HIV e a Aids com queda no número de óbitos pela doença. Segundo o último boletim epidemiológico, em quatro anos a taxa de mortalidade de aids passou de 5,7 por 100 mil habitantes em 2014 para 4,8 óbitos por 100 mil habitantes em 2017. “A garantia do tratamento para todos, lançada em 2013, e a melhoria do diagnóstico contribuíram para a queda, além da ampliação do acesso à testagem e à redução do tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento”, ressaltou a pasta.

“A partir do momento do diagnóstico, a pessoa tem acesso à medicação gratuita”, acrescentou Franzoloso. No Paraná, a mortalidade por aids e a transmissão também caíram. “É importante frisar que nenhuma prevenção é isolada, o preservativo é a melhor forma, mas também a testagem, o uso da medicação e o não compartilhamento de seringas.”

Prevenção e tratamento são igualmente importantes quando se trata de doenças sexualmente transmissíveis. Exame de sangue é essencial para identificar distúrbios assintomáticos, segundo o infectologista Jan Walter Stegmann. “Muitos dos pacientes que trato, trato só pelo exame de sangue. Os pacientes com HIV fazem exames de rotina, muitos deles faço o diagnóstico só pelo resultado do exame”, comenta.

A sífilis, assim como o HIV, pode ser identificada pelo teste rápido feito nas unidades de saúde. O tratamento geralmente é feito com Benzetacil injetável, de acordo com Stegmann, e as doses dependem da fase em que o paciente se encontra. “A cura é 100%”, garante.

O grande problema é da sífilis na gestante, conforme o infectologista. “A sífilis congênita é muito pior, com graves sequelas à criança. Mas aqui em Londrina as gestantes fazem exame de sífilis no pré-natal. A curva de transmissão vertical baixou muito. Nos últimos anos, só um caso foi registrado na cidade.”

Já para o HIV durante a gestação, o médico ressalta que o tratamento pode deixar a carga viral indetectável, onde a chance de se transmitir para o recém-nascido é menor que 1%. De acordo com Stegmann, 3.000 pessoas fazem acompanhamento regular de HIV na cidade. O boletim do Ministério da Saúde também traz a diminuição significativa da transmissão vertical do HIV em 43% entre 2007 e 2017.

CAMPANHAS

Alunos da UEL que são diagnosticados com sífilis ou HIV podem pedir apoio ao Sebec (Serviço de Bem Estar à Comunidade), como explica Maria Elisabethe Rodrigues Gonçalves, chefe da divisão de serviço social do Sebec. “A universidade faz um trabalho de prevenção com a 17ª Regional, o exame rápido é feito anualmente, se um estudante nos procurar dentro dessa campanha e tiver alguma constatação, a universidade oferece apoio.”

Esse atendimento pode ser psicológico, por meio do setor de assistência social. “Fazemos o trabalho para que esse estudante não se sinta desassistido. Trabalhamos com a prevenção na universidade, temos teste rápido, distribuímos folhetos e camisinhas em local acessível”, conta.

Paulo Alexandrino é urologista e atende estudantes da UEL no Dasc (Divisão de Assistência à Saúde da Comunidade), ele comenta que as duas doenças estão em crescimento. “O HIV se pede a sorologia, mas normalmente no início não apresenta sintomas. Encaminhamos para o ambulatório de referência. Já a sífilis dependendo da fase tem sinais, como lesões, e cada um na sua especialidade trata aqui”, pontua.

Já para Stegmann, falta aos jovens fazer o dever de casa. “Antes tinha mais campanhas na mídia sobre DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis), mas acho que a campanha começa em casa, de pais com filhos, e na escola, com os professores. Mas o jovem já sabe disso, a campanha serve para lembrá-lo. Todo mundo sabe disso. É como a dengue, todo mundo sabe que tem que tomar cuidado com o mosquito”, explica Stegmann.

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