Em 40 anos, mescla de cenas dramáticas e casos hilariantes
Em 40 anos de existência, o Palácio do Planalto registra em sua história não apenas grandes momentos da política nacional com suas cenas dramáticas, mas também episódios hilariantes. Com seus Dragões da Independência perfilados ao longo da rampa, o Palácio teve suas portas abertas ao povo em raras situações. A mais marcante foi o velório do presidente Tancredo Neves, no salão nobre do prédio. Por dois dias, milhares de pessoas subiram a rampa para passar pelo caixão de Tancredo.
Cinco anos depois, o ex-presidente José Sarney desceu a rampa com um grupo de assessores, abanando um lenço branco em meio a vaias e aplausos do público que assistia à sua despedida. Seu sucessor, Fernando Collor, que fez das subidas e descidas semanais da rampa do Palácio um marketing político, optou por outra porta de saída. Derrubado pelo Congresso, deixou o Planalto pelos fundos.
Também assim saiu o último presidente militar, João Figueiredo. Dele, não restou nem mesmo o aposento com cama que ele mantinha ao lado do gabinete para dormir. Sarney transformou o quarto num escritório.
Outros personagens resistiram até o último momento a deixar o Palácio. Com a queda de João Goulart, o chefe do Gabinete Civil, Darcy Ribeiro, foi o derradeiro a sair do prédio. Só o fez retirado pelos militares que o encontraram em sua sala, com uma metralhadora sobre a mesa. O presidente Fernando Henrique Cardoso não faz da rampa um percurso habitual. Em seis anos de governo, só usa o trajeto na troca da guarda.
O poder presente no Palácio do Planalto atrai também os loucos e exóticos. Antigos servidores da casa já presenciaram reis e rainhas invadindo a entrada principal do prédio, dispostos a tomar o poder. No governo Sarney, um senhor de cabelos brancos, devidamente fardado e com estrelas de general, adentrou o Palácio pela frente. Apavorados, os porteiros mobilizaram-se e o chefe do Gabinete Militar apressou-se a receber o superior. O coronel bateu continência e subiu o elevador com o general. Minutos depois, o general - um sargento aposentado por insanidade mental - deixava a Presidência numa ambulância.
Os seguranças do presidente já tiveram que retirar um homem que se acorrentou ao mastro de uma das bandeiras defronte ao Palácio, mas tiveram de tolerar a pajelança feita por índias curandeiras que protestavam contra a política indigenista do governo. A pajelança foi feita para abrir o espírito do presidente Fernando Henrique.
Por se tratar de um palácio novo, espíritos ainda não fazem parte das lendas do Planalto. Só uma visão espanta os funcionários que circulam à noite pelo terceiro andar, onde fica o gabinete presidencial. Não se trata de fantasma, mas do busto de Tiradentes, com a forca no pescoço, talhado em pedra pelo escultor Bruno Giorgi. Iluminada, no canto escuro do corredor, a obra chegou ao Planalto no governo de Itamar Franco. O Itamar podia levá-la de volta para Minas, sugeriu um assessor de Fernando Henrique. (C.C. e I.B.)





