Washington, 22 (AE) - Após semanas de negociações infrutíferas
agentes federais dos Estados Unidos removeram à força o menino cubano Elián Gonzalez, de seis anos, da casa de seu tio-avô, Lázaro, em Little Havana, Miami, na madrugada de hoje (22).
Quatro horas mais tarde, depois de um vôo até a base aérea de Andrews, perto de Washington, Elián foi entregue a seu pai, Juan Miguel Gonzalez, que chegou de Cuba há duas semanas para reclamar a custódia do filho.
Elián foi resgatado no mar por pescadores, preso a uma câmara de ar, no Dia de Ação de Graças, em novembro passado, depois de uma trágica tentativa de travessia do estreito da Flórida por um grupo de refugiados, na qual sua mãe e nove outras pessoas morreram afogadas.
Pai e filho, que passam o fim da semana numa casa de hóspedes na base de Andrews junto com a segunda mulher de Juan Miguel e o filho do casal, permanecerão nos Estados Unidos, em lugar não revelado nos arredores da capital norte-americana, até o julgamento de recursos legais sobre o direito de Elián de falar por si próprio e pedir asilo político, um processo legal que poderá demorar meses.
No início da tarde de hoje, as autoridades americanas divulgaram fotos de um Elián sorridente no colo de seu pai, apenas horas depois de a televisão ter exibido as cenas dramáticas do menino chorando durante sua remoção forçada da casa de seus parentes em Miami.
O presidente Bill Clinton endossou a decisão da ministra da Justiça, Janet Reno. Ela disse que tentou até o último momento negociar a transferência pacífica de Elián a seu pai com seus parentes em Miami e evitar a operação que acabou ordenando, na calada da noite, mobilizando agentes federais armados e prontos para enfrentar eventuais reações de elementos radicais da comunidade de 800.000 cubanos que vivem em Miami.
"Mas a cada passo do caminho, os parentes de Miami mudaram as condições e colocaram novos obstáculos", explicou Reno. "Os parentes em Miami rejeitaram nossos esforços, deixando-nos sem outra alternativa a não ser a ação para aplicar a lei."
Mobilizados por grupos anticastristas, nas últimas semanas, milhares de cubanos-americanos transformaram o menino em objeto de adoração religiosa e símbolo de sua ira contra a ditadura de Havana e formaram uma barreira humana em torno da casa de Lázaro González, prometendo resistir fisicamente a qualquer tentativa das autoridades de tirar o menino do local.
No início da tarde de hoje, Lázaro e sua filha Marisleysis, de 21 anos, que cuidou de Elián nos últimos cinco meses, deixaram sua casa com plano de viajar para Washington e pedir para ver menino.
Gregory Craig, advogado de Juan Miguel, disse que não considerava a iniciativa uma boa idéia "por causa do grau de animosidade" entre os membros da família.
Elián fora colocado sob a guarda temporária de seus parentes em Miami pelo Serviço de Naturalização e Imigração (INS, pela sigla em inglês). Mas, após a chegada de seu pai aos Estados Unidos, a ordem foi revogada.
Na última terça-feira, um tribunal federal cancelou uma liminar apresentada pela família para sustentar a decisão do INS de reunir Elián com seu pai e Lázaro Gonzalez foi notificado de que deveria apresentar o menino às autoridades.
A decisão de um tribunal de recursos, na quarta-feira, sobre o processo de petição de asilo político para o menino, feito pela família, impôs que Elián permaneça nos EUA até o desfecho da ação, mas não afeta a ordem do INS sobre sua custódia, que, segundo o governo federal, a uninanimidade dos especialistas no assunto e o senso comum, cabe ao pai e não ao tio-avô.
Ao mesmo tempo, as repetidas concessões feitas por Reno aos parentes de Elián em Miami já começavam a criar um problema político para a administração Clinton. Com as sondagens de opinião indicando uma esmagadora maioria de americanos a favor do retorno do menino à custódia do pai, com o uso da força se necessário, Reno passou a ser criticada por hesitar na execução da lei.
No último domingo, Mary McGrory, a veterana colunista do Washington Post, escreveu que, seguindo o exemplo de Lázaro Gonzalez e da comunidade cubana em Miami, decidira parar de apresentar declaração de imposto de renda e mobilizar seus vizinhos para uma campanha de solidariedade.
Colunistas em outros jornais criticaram Reno e a acusaram de não agir por causa do trauma deixado pela tragédia do assalto federal que ela ordenou em 1993 contra um culto de fanáticos regiliosos em Waco, Texas, no qual morreram mais de 80 pessoas.
Na quinta-feira, o próprio presidente Bill Clinton tornou pública sua frustração com a demora na solução do episódio. Num gesto interpretado como pressão sobre Reno, Clinton afirmou que não via mais "nenhum argumento" capaz de impedir o retorno de Elián a seu pai. Com a disputa pela custódia de Elián congelada numa situação que o New York Times comparou a um virtual sequestro do menino por seus parentes em Miami, Reno deu a ordem para o início da operação de resgate pouco depois das 5h locais de hoje, depois de várias horas de negociação por telefone entre Reno e Lázaro González. Cerca de 50 agentes participaram da ação
mas apenas oito tiveram envolvimento direto na remoção do menino.
Armados e em trajes de combate, eles bateram na porta da frente da casa de Lázaro, anunciando sua chegada. Alertados pelo barulho, Lázaro e Donato Darlymple, um dos pescadores que salvou Elián em novembro, apanharam o menino e tentaram escondê-lo no guarda-roupas de um dos quartos da casa. A essa altura, os policias já estavam dentro da casa e, em questão de segundos, dentro do quarto, onde Elián estava agarrado a Donato.
"Afaste-se, afaste-se", ordenou um policial armado, segundo descrição feita por Donato, enquanto uma agente do INS tomava Elián de seus braços. Um fotógrafo da Associated Press, que estava na casa com a família, documentou a cena. Segundo uma prima do menino, que presenciou o episódio, Elián gritava "Ajudem-me, não me tirem daqui."
Os policiais permaneceram na casa não mais do que três minutos e a operação toda foi concluída em apenas oito minutos. Carregado por uma agente do INS sob a proteção de um policial, Elián foi colocado numa perua branca, que partiu momentos depois. Os poucos manifestantes que faziam vigília diante da casa tentaram reagir e jogaram cadeiras e outros objetos contra os agentes federais. Estes responderam com disparos de gás lacrimogêneo e a situação nas proximidades da casa foi rapidamente controlada.
A polícia de Miami foi informada previamente sobre a operação dos agentes federais e instruída a não interferir.
Alguns minutos depois de ter sido retirado da casa de Lázaro, Elián foi colocado num helicóptero para um breve vôo até a base aérea de Homestead. Ali foi foi transferido para um jatinho para a viagem de duas horas até Washington, acompanhado por uma pediatra especialiazado em trauma emocional e por uma psicóloga infantil.
De acordo com a diretora do INS, Doris Meissner, momentos depois que o avião decolou, Elián estava ao telefone falando com seu pai. O menino, segundo ela, permaneceu calmo durante toda a viagem e ocupou-se com os brinquedos colocados no avião. "Tudo isso pode parecer apavorante agora, mas melhorará logo", disse.
Reno enfatizou o fato de a operação ter sido concluída sem ninguém machucado e "com Elián a salvo" e de volta a seu pai. "Essa é a essencia deste caso, os laços entre um pai e seu filho", disse a ministra da Justiça.
Questinada sobre o uso excessivo de força, simbolizado pela fotografia de um oficial armado no momento da remoção de um visivelmente apavorado Elián dos braços de Donato, Reno notou que "a arma não estava apontada para Elián e o dedo do policial não estava no gatilho".
Dois dias antes, a ministra da Justiça considerou um plano de enviar uma dúzia de agentes federais à casa de Lázaro Gonzalez, desarmados e à paisana, para executar a ordem do INS. Mas foi desaconselhada a usar essa opção pelo FBI.
"Quando agentes da lei entram numa situação como essa, eles precisam estar preparados para o inesperado", disse Reno. Segundo ela, as autoridades haviam recebido relatos sobre a possível existência de pequenas armas de fogo na residência de Lázaro e entre os manifestantes que mantinham vigília há vários dias diante da pequena casa alugada, prometendo impedir a remoção de Elián.
Numa irônica inversão de papéis, na manhã de hoje, milhares de membros da comunidade cubana-americana, que nos últimos anos exerceu uma enorme influência sobre a política dos EUA em relação a Cuba, manifestaram nas ruas de Little Havana sua indignação diante da ação das autoridades federais. Em Havana, milhares de cubanos aplaudiram agradecidos a decisão do Washington de reunir Elián com seu pai.
Satisfeitos com o desfecho do episódio, funcionários federais disseram ontem à tarde que as imagens de Elián sorrindo nos braços de seu pai ajudarão a resolver qualquer problema de percepção criado pela remoção forçada do menino da casa de seus parentes em Miami e poderão ter um impacto mesmo sobre o mérito da ação legal iniciada por Lázaro Gonzalez para mantê-lo nos EUA.
Craig, o advogado de Juan Miguel, disse que seu cliente permanecerá nos EUA até que se esgotem todos os rescursos legais e está plenamente informado sobre as alternativas a seu dispor, que incluem a possibilidade de pedir asilo e não retornar a Cuba.
Segundo Craig, a disposição de Juan Miguel é, no entanto, de retornar à cidade de Cardenas, a duas horas de Havana.

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