Elf é responsabilizada por corrupção política na França e Alemanha Do correspondente REALI JÚNIOR
Paris, 28 (AE) - O grupo petrolífero Elf, recentemente adquirido pela Totalfina, foi manipulado pelo poder político francês indistintamente por governos de direita e esquerda, durante quase toda a década passada. Hoje, numerosos escândalos financeiros envolvendo dirigentes políticos franceses e alemães estão diretamente relacionados a esse grupo, estimando-se em 25 bilhões de francos (US$ 4 bilhões) as perdas sofridas pela empresa entre 1989- 1993 em razão de maus investimentos, má gestão, mas também fraudes, empregos fictícios, e desvio de dinheiro.
Não passa uma semana sem que uma nova denúncia seja divulgada, sempre envolvendo o grupo dirigido, na época, por Loik le Floch- Prigent, que já passou seis meses detido na conhecida prisão de La Santé, em Paris.
Dois de seus diretores na época estão desaparecidos no exterior, mas com mandatos de prisão expedidos pela Justiça. Na verdade, a Elf, até ser privatizada, estava para o governo francês como o Banespa esteve para o governo paulista durante as administrações Quercia e Fleury, servindo, entre outras coisas, de cabide de empregos e para financiamentos a apaniguados políticos.
Uma lista de 105 personalidades francesas e européias, de horizontes políticos diversos, integram a lista de empregos fictícios do grupo Elf.
Cita-se, entre elas, Christine Deviers-Joncour, ex-amante do presidente do Conselho Constitucional, Roland Dumas; Jean-Jacques Perreti, ex ministro gaullista; o radiologista Laurent Raillard, companheiro de golf do presidente François Mitterrand; e os antigos ministros alemães, Agnes Hurland-Buning e Hans Friedrichs.
Hoje, no momento em que a companhia confirmava a denúncia feita pelo jornal inglês Financial Times, dois juízes de instrução, Eva Joly e Laurence Vichinievsky, indiciaram novamente, desta vez por abuso de bens sociais, o ex-ministro da Economia da França Dominique Strauss Khan. O grupo Elf se teria responsabilizado, a pedido do ministro, pelos salários de sua secretária, Evelyne Duval, pagando salários estimados globalmente em 190 mil francos (US$ 31 mil). O ministro já havia sido indiciado anteriormente, por suspeita de ter produzido documentos falsificados para justificar uma remuneração equivalente a US$ 100 mil, paga pela seguradora de estudantes Menef, por um trabalho de consultor.
Dominique Strauss Khan, que foi um dos ministros de maior credibilidade do governo Jospin, no plano interno e externo (muito respeitado no grupo dos Sete Grandes por sua competência), acabou sendo levado à demissão, comprometendo sua eventual candidatura à prefeitura de Paris. Agora, no momento em que seu grupo político admitia o arquivamento do primeiro processo, o que permitiria um relançamento de sua carreira, essa nova denúncia poderá comprometê- la definitivamente.
Há uma semana, ele reapareceu pela primeira vez numa cerimônia pública ao lado do primeiro ministro Lionel Jospin, aumentando a especulação sobre sua eventual volta à política, mas essa nova ofensiva da Justiça vai obrigá-lo a esperar. Também o ex-ministro do Interior Charles Pasqua, gaullista, integrante do governo conservador de Edouard Balladaur, é suspeito de ter obtido diversos empregos fictícios para seus colaboradores, com o grupo Elf.
Essas práticas iniciadas pela empresa petrolífera eram correntes, a ponto de outras empresas decidirem imitá-la, e muitos políticos se aproveitaram da situação. Hoje, o ex-secretário nacional do PS, o deputado Jean-Christophe Cambadellis, foi condenado a 5 meses de prisão, com sursis, pelas mesmas razões. Ele recebeu salários indevidos de uma empresa de gestão de alojamentos de imigrantes. Ao mesmo tempo, o senador Michel Charasse, ex ministro do Orçamento do presidente François Mitterrand, foi novamente condenado a pagar uma multa de 10.000 francos (US$ 1.700) por não ter comparecido a uma convocação da Justiça, como simples testemunha, feita pela juíza Laurence Vichiniesvski. Ele deveria depor no processo financeiro sobre os Hospitais de Paris Internacional, uma filial da assistência pública francesa.
Há alguns dias, o próprio ex chanceler Helmut Kohl foi acusado de ter recebido 45 milhões de francos (US$ 7,5 milhões) da mesma empresa Elf, dinheiro destinado ao financiamento da campanha da CDU, no momento da polêmica compra da refinaria Leuna, na Alemanha.





