Washington, 08 (AE) Faltam duas semanas para o início de um processo que culminará na escolha do 54.º presidente dos Estados Unidos. Alguns meses atrás, era quase certo que apenas dois homens poderiam ganhar as eleições de novembro: o vice-presidente Al Gore, e o governador do Texas, George Bush.
Hoje, ninguém tem certeza nem sabe tampouco se o líder da única superpotência mundial terá o apoio da maioria dos americanos. Em 1996, pela primeira vez desde a década de 20, menos da metade do eleitorado se manifestou.
"Imagino que este ano não haverá um número maior de interessados", disse o professor de ciência política da Universidade do Estado de Nova York em Buffallo, James Campbell.
No próximo dia 24, no Estado de Iowa, os eleitores se reunirão em centenas de locais para discutir e indicar quais são seus favoritos entre os oito pré-candidatos: dois democratas e seis republicanos. Ao longo dos próximos meses, os outros 49 Estados se pronunciarão cada qual de acordo com suas regras, que também variam de acordo com o partido.
A conclusão desse complicado e, às vezes, confuso processo é a escolha dos delegados do colégio eleitoral, que elegerão, em nome do povo americano, o novo presidente. Tudo parecia indicar que Gore e Bush seriam os dois finalistas.
Gore conta com a bênção do presidente Bill Clinton, cuja imagem foi marcada por um ano de escândalo sexual com a ex-estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky, mas cujo governo coincidiu com um dos períodos de maior prosperidade nos Estados Unidos.
Como Gore, Bush também conta com o apoio dos mais altos escalões do poder, a começar por seu pai, o ex-presidente George Bush, e pelos caciques do Partido Republicano. Ele é menos preparado que Gore, especialmente em política externa (durante um programa de televisão não soube dizer ao entrevistado os nomes dos líderes de países como a Índia). Em compensação, demonstrou ter uma habilidade especial para convencer os ricos americanos a financiarem sua campanha algo fundamental para quem quiser chegar à Casa Branca.
Até hoje Bush juntou US$ 67 milhões em contribuições mais que qualquer outro pré-candidato e quase o triplo que Gore. Mas, nos últimos meses, ficou demonstrado que dinheiro só não basta.
Dois homens, que pregam uma mudança nas leis de financiamento de campanha, viram seus índices de popularidade aumentar, com suas chances de disputar as eleições de novembro: o senador republicano John McCain e o ex-senador democrata Bill Bradley.
Segundo Campbell, desde a década de 60, o número de americanos em idade de votar que participam das eleições só tem caído, com uma única exceção: 1992.
"Naquele ano, Ross Perot lançou um terceiro partido (o Partido da Reforma) para competir com democratas e republicanos e acho que foi essa novidade que despertou maior interesse", explicou o professor. Mas, segundo Campbell, uma coisa é certa: na medida em que a porcentagem do eleitorado americano que vota cai, aumentam os gastos com a campanha.
Em 1996, segundo John Green, que escreveu sobre o tema, US$ 700 milhões foram gastos nas eleições presidenciais. Se forem levadas em conta as outras votações naquele mesmo ano, os EUA investiram um total de US$ 4,2 bilhões em campanhas políticas.
Campbell não acredita, no entanto, que McCain e Bradley devam a popularidade às suas propostas de modificar as regras de financiamento de campanha.
"Acho que os americanos reagiram ao fato de que aparentemente estava tudo decidido, mesmo sem ninguém ter votado", explicou. Outro fator que pode ter pesado, na falta de outros problemas (os EUA estão com a taxa de desemprego mais baixa em décadas e quase sem inflação) é o caráter.
McCain aparece como o herói que foi prisioneiro de guerra dos vietnamitas durante cinco anos e depois ajudou a promever a reaproximação doVietnã com os EUA. Em caráter, ele ganha de Bush, que teve uma juventude transviada.
Gore, o menino modelo, nascido em berço de ouro e destinado a ter um futuro político, é visto como o oposto de Clinton. Ele só cometeu um pecado: ser certinho demais. "Bradley é mais calmo, menos duro", explica Campbell. "Não é aquela pessoa que parece que foi treinada para estar no lugar onde está."
A grande novidade dessas eleições, que também servirão para renovar toda a Câmara de Deputados e um terço do Senado, é Hillary Clinton. Pela primeira vez na história a primeira-dama abandona a Casa Branca e o marido em Washington, para trabalhar na sua campanha. Ela se mudou para Nova York, para tentar ser eleita senadora por aquele Estado.
Mesmo que tenha os votos de menos da metade do eleitorado americano, o novo presidente dos EUA poderá ter mais poder que alguns de seus antecessores: por razões de idade, alguns juízes da Suprema Corte deverão ser substituídos. E o sucessor de Clinton talvez tenha condições de nomear entre dois e cinco novos membros.