Eleições peruanas terão segundo turno Do enviado especial Roberto Lameirinhas
Lima, 12 (AE) - Alberto Funimori, presidente peruano e candidato do movimento Peru- 2000 ao terceiro mandato consecutivo, e Alejandro Toledo, economista e candidato do partido Peru Possível, disputarão a presidência do Peru em segundo turno, em data a ser definida.
Depois de mais de sete horas de tensão extremada - período entre o prazo estipulado pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe) e o momento em que divulgou as cifras -, milhares de manifestantes pró-Toledo, em várias cidades do país explodiram em euforia após o anúncio.
O presidente do Onpe, José Portillo, chegou à sala de imprensa da entidade às 19h30 (21h30 em Brasília) e passou a ler um comunicado no qual reiterava que seu trabalho era eminentemente técnico - em resposta às dezenas de acusações de que o resultado das eleições de domingo foi manipulado.
Só depois de ler o documento, de duas páginas, passou a divulgação do resultado da apuração, com 97,68% dos votos contados. Fujimori obteve 49,84% dos votos e Toledo, 40,31%.
Portillo garantiu categoricamente que, após a contagem dos votos ainda não computados, o resultado poderia variar em apenas 0,05 ponto porcentual. Instado por jornalistas a confirmar se assegurava a realização de um segundo turno, Portillo, irritado, respondeu: "Essa instituição não faz nenhuma declaração de ordem política. Essa tarefa é do Jurado Nacional de Eleições (JNE). Minha declaração é técnica e, tecnicamente, posso dizer que esse resultado não deve ser modificado numa margem superior a 0,05 ponto. Vocês são inteligentes e podem fazer as contas."
Faltam ser apurados 1,5% dos votos emitidos no exterior e algumas atas de regiões mais remotas do país. Essa apuração pode demorar ainda mais cinco dias, segundo Portillo. Somente após a contagem de todos os votos, o JNE diplomará os dois classificados para o segundo turno e a data da eleição - provavelmente no último domingo de maio ou o primeiro de junho.
Toledo, o ex-engraxate de origem indígena, ex-assessor do Banco Mundial e da ONU, e economista com PhD pela Universidade de Stanford, surgiu no balcão do Hotel Bolívar, na Praça San Martín, para saudar uma multidão estimada em 40.000 pessoas, que se concentravam ali desde o meio-dia. Ergueu uma bandeira peruana e cumprimentou os candidatos derrotados no primeiro turno Luis Castañeda e Máximo San Román.
"Quero anunciar, nesse momento, que a unidade e a coletividade peruana acabam de triunfar", disse. "Ficará registrado na história o que aconteceu aqui nos últimos dias e vocês hão de passar para a história como os responsáveis, graças à sua voz e à sua coragem, de salvar, atuando pacificamente, a democracia no país."
Antes do anúncio da Onpe, os manifestantes que tomavam a Praça San Martín temiam que uma fraude estava em curso. "Os técnicos do Onpe pretendem dilatar o anúncio oficial da fraude", disse Toledo, em meio a tensão. "Mas não vão nos enganar, não vão distorcer a vontade do povo."
O último boletim do Onpe era da noite anterior, quando haviam sido apurados 90,82% dos votos do primeiro turno de domingo. O presidente Alberto Fujimori - que tenta obter o terceiro mandato consecutivo - tinha 49,79% dos votos e Toledo obtinha 40,39%.
Esses números deixavam Fujimori a um passo da vitória no primeiro turno, mas as projeções de empresas de pesquisa projetavam a necessidade de um segundo turno, uma vez que estatisticamente eram remotas as possibilidades de que, ao apurar os 9% de votos restantes, o presidente alcançasse a cifra dos 50% dos votos mais 1. Contagens paralelas realizadas pelas mesmas empresas e a Associação Cívica Transparência também indicavam, desde domingo, a necessidade de uma segunda votação.
Antes de ir à Praça San Martín, Toledo tinha recebido em sua casa o embaixador de Portugal, Alexandre Mexia, e outros embaixadores de países da União Européia. Disse ter recebido apoio dos membros da UE e um telefonema da chancelaria francesa, que manifestaram o desejo de que as eleições no Peru sejam limpas.
Em entrevista coletiva, citando "uma fonte muito segura", ele garantiu ter conhecimento de que "apesar das fraudes na cédulas de votação, que não traziam o nome do candidato do Peru Possível em 14 departamentos (províncias)", as atas indicavam uma vitória dele por mais de 56% já no domingo à noite.
"Com a autoridade que me conferem os votos de mais de 4 milhões de peruanos, posso assegurar que o povo do Peru não vai aceitar que sua vontade seja distorcida pela fraude", disse Toledo, diante de cerca de milhares de apoiadores, depois do anúncio do segundo boletim do Onpe de terça-feira, que indicava uma discreta queda na votação de Fujimori em relação ao boletim anterior (de 49,96% para 49,79%).
"A partir de agora, os estudantes, trabalhadores, as mulheres e homens deste país iniciam uma jornada cívica para garantir uma campanha justa e limpa num segundo turno. O estabelecimento de regras justas será condição fundamental para que o partido Peru Possível, os outros movimentos da oposição democrática e os observadores internacionais reconheçam a legitimidade do processo."
Ele defendeu a criação de mecanismos que garantam a igualdade de condições de acesso aos meios de comunicação para os dois candidatos e a adoção de um "código de ética política". Mas reconheceu a inviabilidade da proposta da oposição para que fosse nomeado um "gabinete de transição", que garantisse a lisura do processo no segundo turno.
Os estudantes começaram a chegar à Praça San Martín por volta do meio-dia para continuar a vigília cívica destinada a evitar uma possível fraude que desse a vitória a Fujimori no primeiro turno. Ao mesmo tempo, Toledo minimizava declarações do dia anterior, quando afirmou que estava em contato com altos comandantes militares.
"Conversei com alguns oficiais apenas para pedir-lhes que não aceitem nenhuma chantagm do governo", esclareceu. A manifestação em favor de Toledo começou na manhã de terça-feira, quando um grupo de estudantes da Universidade Católica do Peru concentrou-se na frente do Hotel Sheraton, onde estava instalado o centro de imprensa internacional e o candidato oposicionista dava uma entrevista coletiva. Aos poucos, outros estudantes foram se juntando a eles. No começo da noite, com a adesão dos sindicatos ao movimento, os manifestantes já eram cerca de 30.000.
Aos gritos de "democracia sim, fraude não", os estudantes abriram uma gigantesca bandeira peruana. No começo da tarde, Toledo convocou a multidão para realizar uma marcha até o Onpe às 19h (21h de Brasília). Mas a marcha acabou não ocorrendo e os manifestantes permaneceram na frente do Sheraton até as 22h.
Toledo e os candidatos presidenciais derrotados no primeiro turno que lhe dão apoio falaram à multidão da varanda do hotel. Entre as personalidades que acenaram para os manifestantes estavam a estrela do vôlei Cecilia Tait e a ex-mulher de Fujimori, Susana Higuchi - ambas eleitas para o Congresso, respectivamente, pelo Peru Possível e pela Frente Independente Moralizador. Ao fim da manifestação, um grupo de aproximadamente 5.000 estudantes dirigiu-se ao palácio do governo.
Temeu-se por atos de violência como os que ocorreram no domingo à noite, quando a polícia usou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar uma marcha na frente do palácio. As manifestações não se limitaram a Lima. Em Arequipa, Cuzco, Tumbes, Iquitos e Chiclayo os apoiadores de Toledo também saíram às ruas aos milhares. Fujimori não se manifestou.
Desde o dia da eleição, só interrompeu seu silêncio uma vez, na segunda-feira à noite, para rechaçar as acusações de fraude e acusar Toledo de "irresponsabilidade" por acirrar os ânimos da população.
Coube ao primeiro vice-presidente de sua chapa, Francisco Tudela, sair ao ataque contra o adversário. "O senhor Toledo está cometendo mais do que um ato de irresponsabilidade. Creio que estamos aqui diante de um crime de sedição", disse Tudela.
"A incitação da população antes mesmo de conhecer o resultado do Onpe e as sugestões de conspiração com militares constitui delito grave, previsto pela Constituição do país."
"As ações do candidato Toledo têm causado também danos irreversíveis para a imagem do Peru no exterior", continuou Tudela.
"Não tenham dúvidas de que as cenas transmitidas para todo o mundo da multidão convocada por ele passam uma impressão de instabilidade política que deve afastar os investidores estrangeiros."





