Eleições européias ainda não atravessaram fronteiras nacionais Do correspondente Reali Júnior
Paris, 29 (AE) - As eleições parlamentares européias de 10 a 13 de junho não conseguiram ainda atravessar as fronteiras nacionais dos 15 países da UE, permanecendo dominadas pelos temas políticos que prevalecem em cada país, apesar de assuntos importantes em termos de integração, como o do euro, em vigor desde 1º de janeiro. A classe política européia continua encontrando dificuldades para mobilizar o eleitorado. Registram-se nos pleitos para o Parlamento de Estraburgo os maiores índices europeus de abstenção, 58,5 % (média européia de participação em 1994). Segundo analistas europeus, essa pequena participação se deve, antes de mais nada, a um problema de legitimidade dessa Assembléia. Ao contrário dos Parlamentos nacionais, seu poder é limitado e não resulta na existência de um Executivo forte, encarregado de aplicar uma política para a UE. Enquanto esse Parlamento não tiver condições de afetar diretamente a vida dos cidadãos europeus, permanecerá relativamente marginalizado pela própria opinião pública européia. Os partidos que participam do pleito europeu são os mesmos que disputam o poder nacional. Soma-se a isso a existência de um certo consenso pró-construção européia entre os partidos liberais e social-democratas, não havendo espaço para os que querem expressar sua oposição ao modelo atual da construção européia. As opções são muito limitadas, restringindo-se a partidos extremistas como a Frente Nacional, na França, os Movimentos Radicais Anti-Sistema (FPO), na áustria
ou a Aliança dos Cidadãos Livres, na Alemanha. Na ausência de verdadeiros partidos transnacionais e de espaço de competição política, as eleições sofrem sempre uma forte interferência dos temas nacionais e não-europeus, como assistimos em disputas anteriores na França, Dinamarca e Grã-Bretanha, onde se misturaram contestação nacional e manifestação antieuropéia.
Este ano, os partidos políticos europeus, tanto de direita como de esquerda, não conseguiram tirar proveito das lições da guerra de Kosovo nem do lançamento da zona do euro para mobilizar a opinião pública. É verdade que as hesitações atuais da moeda única não estão contribuindo para que esse evento de grande importância se transforme num bom tema de campanha. Por isso, no comício social-democrata de quinta-feira em Paris, reunindo Lionel Jospin, Tony Blair, Gehard Schroeder e Massimo DAlema, esses governantes tentaram destacar, antes de mais nada
o fato de eles serem responsáveis por 11 dos 15 governos da UE, uma unidade que lhes permitirá avançar no processo atual.
Na sala, ninguém conseguia disfarçar as dificuldades econômicas que envolvem alguns desses países, Itália e Alemanha principalmente, agravadas pelos problemas do euro, temas que deverão prevalecer nestes próximos dias de campanha. Os seis ministros socialistas lançaram apelos convergentes de defesa de valores sociais, contrapondo-se à "ideologia da direita", para a qual, segundo Blair, "o mercado é a solução de todos os problemas". Nunca Blair e Jospin, apesar de divergências quanto à chamada "terceira via", estiveram tão próximos na defesa de uma identidade social comum de esquerda, denunciando a direita, unicamente preocupada com as virtudes do mercado.





