Eleições argentinas marcam fim da era dos caudilhos
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sexta-feira, 15 de outubro de 1999
Por ARIEL PALACIOS, Especial para a AGÊNCIA ESTADO 
Buenos Aires, 16 (AE) - "A Argentina mudou e os partidos políticos ainda não perceberam isso. Estas eleições estão marcando o fim de uma longa era na qual predominaram os caudilhos e os líderes fortes, e, ao mesmo tempo, o começo de uma nova época em que o impacto das pesquisas e o enorme empobrecimento da classe média baixa implicam uma reviravolta nas decisões dos políticos e do eleitorado." Essas são teses do analista e pesquisador de opinião pública Artemio López, diretor da consultora independente Equis.
Falta uma semana para as eleições presidenciais argentinas, para as quais as pesquisas indicam que o vencedor será Fernando de la Rúa, candidato da coalizão oposicionista Aliança UCR-Frepaso, que derrotaria Eduardo Duhalde, o candidato do partido do governo, o Partido Justicialista (mais conhecido por peronista). As projeções de López indicam que De la Rúa terá 45% dos votos, enquanto Duhalde perderá com 35%, o que significaria a pior performance peronista em uma eleição presidencial na história argentina.
Essa derrota, segundo López afirmou à AE, deve-se ao fato de que o peronismo não tem mais a adesão da classe média baixa, que historicamente foi sua sustentação: "Com uma economia que privilegiou o mercado interno, o peronismo foi o criador da classe média na Argentina, tornando-a a mais extensa da América Latina. Mas a distribuição de receita que a construiu se desfez. A classe média foi a mais atingida pelos anos de ajuste econômico do presidente Carlos Menem, peronista. Essa enorme base eleitoral está ressentida com o peronismo. E é ela que vai determinar a vitória da oposição."
Segundo López, a Aliança UCR-Frepaso captou os votos desses eleitores que empobreceram: "Eles não provêm de setores de pobreza estrutural. São novos-pobres, que eram filhos da classe média baixa, funcionários públicos despedidos pelas privatizações, pequenos comerciantes, operários metalúrgicos, que foram o protótipo da classe média baixa." De cada 100 pobres da Província de Buenos Aires, 60 provêm da classe média baixa; só 40 são pobres de várias gerações.
O consultor sustenta que esses trabalhadores de carteira assinada que hoje dependem de serviços eventuais para sobreviver decepcionaram-se com Menem. Duhalde, que foi seu vice-presidente, é atingido por tabela. López considera que a campanha política de Duhalde ainda não percebeu que a realidade social mudou, e ainda apela para esse eleitorado que atualmente rejeita o peronismo.
"Ele não conseguiu diferenciar-se de Menem e, para complicar, na Província de Buenos Aires, da qual Duhalde é o governador, estão 50% dos desempregados do país." Segundo López, o peronismo mantém força na pobreza estrutural e na classe alta, "especialmente nos novos ricos, que fizeram fortuna com Menem".
López considera que outra novidade destas eleições é o fim dos atuais líderes políticos nacionais, como Menem e o ex-presidente Raúl Alfonsín: "Menem não será o líder do peronismo, porque será rejeitado. Alfonsín, por seu lado, recuperou a imagem pública após o acidente de automóvel que quase o matou, mas quando voltou a falar de política, sua imagem começou a cair."
O analista sustenta que realidade social está ultrapassando as estruturas partidárias. "Terminou a era dos caudilhos. Os candidatos hoje não têm carisma. Não são mais como as figuras políticas dos anos 70, com poder e prestígio que por si só conseguiam votos."
O desmoronamento dos fortes líderes nacionais proporcionou um elemento novo no sistema eleitoral: o corte de cédula. Como neste país se vota no partido, e não nos candidatos isoladamente, essa modalidade consiste no corte literal (com tesoura) das cédulas eleitorais, de forma a desvincular o voto. A cédula cortada é colocada dentro do envelope que será inserido na urna. Dessa maneira, pode-se votar para um deputados de um partido e para um presidente de outro.
"Nas grandes cidades, o corte se faz dentro da cabine de votação. Mas no interior do país, o eleitor já leva de casa a cédula cortada, fornecida pelos líderes locais, que lhes dão o envelope pronto. O voto é construído de forma que o eleitor possa votar em uma alternativa nacional diferente do peronismo, para garantir a eleição para os peronistas em nível local e provincial", explica López.
A prática expandiu-se com as eleições provinciais antecipadas este ano. "Os governadores peronistas viram que a candidatura de Duhalde oferecia poucas vantagens. O corte de cédula é uma novidade e implicará uma reestruturação do sistema de partidos." Com o corte, torna-se cada vez maior a influência de líderes locais, até hoje desprezados pelos líderes nacionais.
Analistas consideram que Duhalde teve uma política de adversidade com os governadores peronistas das outras províncias muito antes desta campanha. "Nas províncias praticamente não há uma campanha nacional por ele. Duhalde perderá a eleição porque falta vontade aos governadores de trabalhar por ele", afirmam.
Outra novidade, sustentam, é a influência das pesquisas. Mas não é o eleitor que é influenciado, e sim os aliados políticos e assessores de campanha, segundo López: "O clima das pesquisas foi alterado, especialmente na campanha de Duhalde, em que a sensação de derrota já tomou conta dos assessores. Os próprios peronistas acham que vão perder a eleição presidencial."
Em uma coletiva para os correspondentes estrangeiros, alguns dos principais pesquisadores do país sustentaram que um novo elemento de campanha - a "importação" de assessores estrangeiros - não ajudou os dois candidatos.
Para Roberto Bacman, do Centro de Estudos de Opinião Pública (CEOP), Dick Morris, ex-assessor do presidente Bill Clinton, e atual assessor da campanha de De la Rúa, teve um papel "superficial". Diferente foi a participação de Duda Mendonça na campanha de Duhalde, em que foi o arquiteto da última fase da campanha. "Foi muito difícil o papel dos dois, é preciso conhecer o país.", avalia.
Para Manuel Mora y Araújo, "Morris quase nem foi ouvido. Mendonça, apesar do grande número de argentinos em sua equipe, deu um enfoque inadequado, trouxe um modelo brasileiro excessivamente enfocado na publicidade, que pode funcionar no Brasil, mas não aqui".


