Brasília, 23 (AE) - A proximidade do calendário eleitoral é o fator preponderante no debate sobre o reajuste do salário mínimo, a mais tradicional das bandeiras da oposição, que neste ano mudou de mãos e está mobilizando dois dos principais partidos da bancada governista. O PFL e o PSDB uniram-se no discurso pró-aumento por motivos diferentes, mas esperam tirar do episódio o mesmo tipo de dividendo político: associar sua imagem à defesa de questões sociais, o mais forte cabo eleitoral das próximas eleições.
O PFL, mais astuto dos partidos no cenário nacional, antecipou a discussão do mínimo este ano, deixando para trás até mesmo o PT. Ao defender um salário equivalente ao montante de US$ 100 - R$ 178 pela cotação de hoje - o partido colocou o Palácio do Planalto em uma saia justa e esvaziou a provável pressão que os partidos de esquerda fariam em abril, quando tradicionalmente são organizadas manifestações em defesa do mínimo.
Diante da manobra pefelista, a oposição preferiu ironizar e não tem participado da discussão. O PT trabalha em silêncio e deve organizar mobilizações em 1.º de maio, quando se comemora o Dia do Trabalho. O PMDB, partido da aliança governista, também tem evitado embarcar na questão do mínimo e alterna o silêncio com ironias às teses encampadas pelo PFL.
Mais do que a campanha pelas prefeituras no fim deste ano, os dois partidos afiam as garras para a sucessão presidencial de 2002. As pesquisas de opinião mais recentes continuam indicando que as grandes preocupações da população estão ligadas à área social: desemprego, violência e falta de verbas para a saúde são algumas das queixas identificadas pelos institutos de pesquisa.
Reação - "Sempre se aproveitam os anos eleitorais para tirar concessões de quem decide", admitiu o deputado Luiz Antônio de Medeiros (PFL-SP), autor da proposta que eleva o mínimo para US$ 100. "Quem decide precisa de voto", completou. Medeiros é um dos parlamentares que serão recebidos amanhã (24) no Ministério da Fazenda pelo ministro Pedro Malan, para discutir o assunto.
Mudança - Atendendo a uma orientação do governo, o PSDB abandonou a posição crítica e passou a defender o aumento do mínimo, condicionando o reajuste à manutenção da estabilidade da moeda e do ajuste das contas públicas. O discurso de reajuste aliado ao equilíbrio fiscal foi encomendado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso - que aproveitou uma reunião no Palácio da Alvorada esta semana para ajustar também o discurso oficial -, mas não deixou de atender necessidades políticas do partido.
Na reação ao PFL, os tucanos passaram a defender um aumento maior do que o simples repasse da inflação, o chamado aumento real, e a especular sobre um porcentual de 9% como aceitável. Também transferiram para o ministro da Previdência, Waldeck Ornélas, a responsabilidade de tornar viável o aumento do salário mínimo.

mockup