Eleição abre nova fase na política uruguaia
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sábado, 04 de dezembro de 1999
Por Lourival SantAnna 
Montevidéu, 04 (AE) - A eleição presidencial de domingo inaugurou nova fase na política uruguaia. Em vez da alternância de poder entre dois partidos que abrigavam espectros igualmente amplos, a disputa passa a ser entre dois pólos ideológicos.
Em outras palavras, o embate deixa de ser estritamente político, para se tornar também ideológico. Entretanto, numa aparente contradição, essa nova fase é marcada pela moderação dos dois pólos, dificultando sua diferenciação.
Até a eleição passada, em 1994, vigorava a chamada Lei de Lemas. Os partidos apresentavam listas, com o número de candidatos que quisessem. Tanto no Partido Colorado quanto no Nacional (Blanco), esses candidatos iam da esquerda à direita. A soma dos votos ia para o candidato mais votado.
Uma reforma eleitoral em 1996 eliminou o sistema de listas e introduziu o segundo turno na eleição presidencial, que os uruguaios chamam de balotaje (do francês ballottage). O novo sistema abriu caminho para a constituição do que o presidente Julio María Sanguinetti denomina "famílias ideológicas".
Desde a formação da centro-esquerdista Frente Ampla (FA), em 1971, o bipartidarismo uruguaio veio dando lugar gradualmente a um sistema triangular. A FA cresceu consistentemente nesse período: obteve 21% na eleição que marcou a restauração democrática, em 1984; 22% em 1989; e 30% em 1994, com o candidato Tabaré Vázquez tendo mais votos do que Sanguinetti, beneficiado, porém, pela lista colorada. Nessa altura, falava-se num sistema dos "três terços", pela divisão equilibrada dos votos.
Mas a esquerda seguiria crescendo. "A única possibilidade de parar a esquerda era o segundo turno", diz a cientista política María Elena Laurnaga. De fato, na eleição parlamentar e primeiro turno presidencial de 31 de outubro, com voto vinculado, a FA chegou a 39% dos votos, pondo Vázquez em primeiro lugar. Os colorados tiveram 32% e os blancos - a força política que cedeu espaço -, 22%.
O efeito da reforma, no entanto, vai muito além do bloqueio à esquerda. Os analistas ainda não sabem se o novo sistema resultará numa espécie de novo bipartidarismo, polarizando, de um lado, colorados e blancos e, de outro, a FA, ou se os dois partidos tradicionais continuarão diferenciando-se, pelo menos no primeiro turno, para depois eventualmente juntar-se, como ocorreu domingo, no segundo turno.
"A minha opinião é a de que se pode manter o pluripartidarismo, porque as regras eleitorais permitem", diz Jorge Lanzaro, diretor do Instituto de Ciência Política da Universidade da República. "Os partidos constituem suas bancadas no Parlamento e reagrupam-se no segundo turno."
À primeira vista, o novo modelo poderia implicar contraposição mais nítida entre liberais e socialistas. "Mas o fato é que a esquerda cresce à medida em que assume um perfil mais moderado"
observa Lanzaro. "A balotaje tem um efeito nitidamente moderador, tanto sobre a esquerda quanto sobre a centro-direita."
Quem ganha, diz o analista, "é quem se coloca melhor no centro". Talvez aqui esteja a maior diificuldade da esquerda. Vázquez tem um discurso moderado, mas sua posição lhe impõe limites. "Há uma lei da ciência política segundo a qual quem se parece muito não é opção e quem se diferencia demais não chega lá", explica Lanzaro.
Colorados e blancos acomodaram-se a suas semelhanças. A FA tem o ônus de se diferenciar. Esse ônus pode ser o teto de 45% dos votos, obtidos no segundo turno: uma fatia expressiva, porém insuficiente para chegar ao poder.


