Ele só queria prestígio, poder, diz mulher do vereador
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sábado, 26 de junho de 1999
Por Alceu Luís Castilho 
São Paulo, 27 (AE) - Segundo sua mulher, Leopoldina Pereira, o vendedor de automóveis Vicente Viscome era um homem provinciano que não queria contas no exterior nem dinheiro na política. "Queria prestígio, poder." Dinheiro, ele já tinha: R$ 16 milhões, conforme declaração ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) em 1996. Na região do Belém, Mooca e Tatuapé, os redutos eleitorais que lhe renderam 27 mil votos, reuniu mais de cem imóveis.
Foi da namorada de Viscome, a socióloga Tânia de Paula, que saiu uma das declarações-chave no processo que deve levar à cassação de seu mandato. Após os depoimentos dela e do ex-administrador regional da Penha Pedro Antônio Saul, em fevereiro, o milionário empresário teve a prisão temporária decretada. A detenção tornou-se preventiva e ele concilia hoje a cela com as sessões na Câmara. Somente em dois meses de 1997, contou Tânia, ele reunira R$ 65 mil, 15 vezes o salário de vereador.
Negativa - Em depoimento na Justiça no início do mês, Tânia negou tudo o que dissera repetidas vezes à polícia - registrado nas mais de 2 mil páginas do inquérito sobre a Penha - e à CPI dos Fiscais. Essa guinada ocorreu após mais de 200 ligações do celular de Viscome para a casa de Tânia, que se declarou vítima de pressão policial. Em sua agenda, em 1998, quando fez anotações sobre propinas para ela e Viscome, Tânia escreveu: "Hoje encerro qualquer vínculo com o vereador e a AR-Penha. O saldo é de R$ 12 mil."
Esse vereador de barbas brancas e chorão, que derramou lágrimas em depoimentos, já enfrentou vários processos e foi condenado uma vez a 4 anos e 2 meses de prisão por trocar assistência médica por votos. Em um dos inquéritos, foi acusado de vender um carro roubado. Em outro, Leopoldina acusa-o de ameaçar matá-la.
Viscome foi expulso do PPB em março. Logo no início de sua segunda gestão como vereador (foi suplente em 1995 e 1996), trocou empurrões com Dalton Silvano (PSDB), que viria a ser um dos membros da CPI dos Fiscais. Foi também em 1997 que começaram as denúncias sobre a Penha, quando os vereadores governistas vetaram a CPI dos camelôs. Dois anos depois, o tiro da conquista do poder sai pela culatra: da arrogância resta um ar de desamparo.


