Jerusalém, 29 (AE-AP) - Em suas memórias escritas na prisão em 1961, e finalmente divulgadas hoje por Israel, Adolf Eichmann, o responsável por vistoriar o Holocausto diminui a importância de seu papel, mas descreve em detalhes pedantes o funcionamento da máquina de morte nazista.
Nas 1.300 páginas manuscritas em preciso alemão gótico, Eichmann se retrata como um idealista que foi enganado pelos "Deuses nazistas", como um obediente burocrata que detestava suas frequentes viagens aos campos da morte da Europa Oriental e afogava seus pesadelos em álcool.
Alguns historiadores israelenses dizem que o relato de Eichmann foi feito para ele se defender e é tão distorcido que não tem valor histórico.
O material foi liberado agora, 40 anos da morte por enforcamento em Israel de Eichmann, para ser usado pela professora universitária americana Deborah Lipstadt, em sua defesa no processo que o historiador inglês David Irving move contra ela. Irving alega que Lipstadt o difamou escrever num livro que ele negou o Holocausto e distorceu dados sobre o número de judeus mortos pelos nazistas.
Irving está processando Lipstadt por difamação num tribunal britânico, e as memórias de Eichmann provavelmente irão ser apresentadas como evidência.
Eichmann, que foi criado na áustria, uniu-se ao Partido Nazista em 1932, um ano antes de Hitler chegar ao poder na Alemanha. Eichmann disse que acreditava fervorosamente nas promessas de Hitler de eliminar a "vergonha" da derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, mas nunca foi um anti-semita. Como prova, ele apresentou um amigo de infância judeu e parentes judeus por parte de sua esposa.
Em 1936, ele foi transferido para o "Departamento Judeu" no quartel-general dos serviços de segurança nazistas. Ele afirmou que em determinado momento, comprou um livreto, "Hebreu para Todos", porque foi-lhe pedido para ler jornais das comunidades judaicas, a maioria escrita em iídishe.
Eichmann afirmou que no começo defendeu "soluções humanas", como encorajar a emigração judaica, criar protetorados judeus na Europa Oriental e enviar judeus para a ilha de Madagascar, na áfrica.
Em 1939, ele tornou-se responsável pela deportação de judeus para a Europa Oriental. Eichmann alegou que ele não tinha autoridade, apenas coordenava os horários dos trens e que todos as decisões foram tomadas por seu superior imediato, o chefe da Gestapo Heinrich Mueller.
Logo, ele foi mandado por Mueller para os campos da morte da Europa Oriental ocupada pelos nazistas. Em janeiro de 1942, ele chegou a Chelmo, uma cidade da Polônia.
"Eu vi judeus despidos, homens e mulheres, entrarem num ônibus sem janelas", escreveu Eichamann. "As portas foram fechadas e o motor, posto em funcinamento". A fumaça foi lançada dentro do veículo, matando todos os ocupantes.
Ele disse que ficou tão chocado que não foi capaz "de cumprir as ordens de Mueller para registrar quanto tempo levava para que todos fossem mortos.
No texto, Eichman define o Holocausto como "o pior crime da história", mas não se sente responsável por ele. Ele ficou conhecido como o "técnico da morte". Em vários momentos Eichman descreve-se como um "dente na engrenagem da roda gigante" do Terceiro Reich. "Minha posição era a mesma da de milhões de outros que tinham de obedecer", escreveu. "A diferença era simplesmente que eu tinha uma tarefa muito mais difícil de realizar."
A Justiça israelense manteve as memórias guardadas nos arquivos oficiais por temer que pudessem ser mal interpretadas por grupos que negam o Holocausto ou a família dele as utilizasse para obter lucro.
Eichman foi sequestrado na Argentina em 1960, levado para Israel e executado dois anos depois.