Washington, 16 (AE-NEWSWEEK) - Até agora, neste outono, Billy Graham deu aula em Harvard, a exemplo do ex-primeiro-ministro britânico e dos presidentes da Tanzânia e da República Dominicana. Há alguns dias, a pedido dos estudantes do Instituto de Política, o tom aprofundou-se um pouco. O orador principal na Escola Kennedy de Governo foi um ex-profissional de luta livre.
Você deve ter ouvido falar dele. É um dos que dizem que a religião oficial é uma "impostura", o escândalo Tailhook da Marinha foi "muito barulho por nada" e o "complexo industrial-militar" americano contratou assassinos para matar John F. Kennedy. Ele é a favor da legalização da maconha e da prostituição e declarou à revista Playboy que gostaria de, na reencarnação, ser um sutiã de tamanho especial: 38DD.
É nesse ponto que a política se encontra no momento: Al Gore, formado em Harvard e criado em Washington, está transferindo seus escritórios para Nashville (Tennessee), na esperança de revitalizar sua imagem e mostrar que é um sujeito correto. Enquanto isso, na faculdade em que Al Gore se formou, os garotos queriam compartilhar do humor e sabedoria de Jesse Ventura, motoqueiro com diploma do curso colegial transformado em governador de Minnesota. O corpo docente também queria.
Ventura reuniu-se com eles para discutir economia e direito constitucional. "Ele queria reunir-se com os professores", disse um funcionário da escola. "E eles estavam mais que interessados em conhecê-lo." Claro que estavam. Até os professores de Harvard gostam de um bom espetáculo. O julgamento de O. J. Simpson transformou o Direito em telenovela. A ascensão, queda e ascensão de Bill Clinton fizeram o mesmo pela política. Campanhas e diversões sempre estiveram interligadas nos Estados Unidos. Mas Monica Loucura apagou o que restava da linha divisória entre o sério e o circense, e nesses candidatos à fama a mídia pode ter encontrado um irresistível grupo de competidores prontos para encarar as câmeras.
No âmbito político de Washington e no mundo calibrado da política convencional, as campanhas tornaram-se um exercício de cautela ideológica e acúmulo de dinheiro. A política bipartidária parece uma atividade melancólica e insensível de discursos escritos, planilhas e calculismo centrista. Nesse mundo, o governador George W. Bush, do Texas, está ganhando terreno no campo dos republicanos, enquanto Al Gore e Bill Bradley estão engalfinhados numa disputa de morte em torno de pequenas divergências ao mesmo tempo em que lutam pela indicação de sua candidatura à presidência pelo Partido Democrata.
Entra em cena o Bando Selvagem: um grupo de quase candidatos que entendem de mídia e têm egos monumentais, motivações desencontradas e, em alguns casos, polpudas contas bancárias. Se eles têm um tema em comum é o de que O Sistema é corrupto e apenas um semideus com fama, dinheiro ou o dom de provocar (ou todos os três) pode reformá- lo. Eles argumentam que nenhum "político" puro e simples pode dar aos EUA o que o país parece querer na era pós-Clinton: um líder "autêntico" que não seja simplesmente a imagem das pesquisas de opinião que ele manda fazer. O Bando Selvagem preocupa-se menos com a vitória do que com o envio de uma mensagem - e consegue às vezes ser tão desagradável e revoltante que a vitória fica impossível. O protótipo, claro, é Ross Perot, fundador do Partido da Reforma que recebeu 19% dos votos em 1992 e 8,4% em 1996.
Agora outros estão fazendo testes como candidatos ao papel. Em Mulholland Drive, Los Angeles, Warren Beatty estuda o próximo passo a dar depois do discurso ponderado e bem recebido que fez sobre as virtudes do liberalismo à moda antiga. Ele conta a amigos que pode muito bem concorrer em determinadas primárias do Partido Democrata, no mínimo para ser o coro grego de consciência liberal de um homem só na trilha da campanha. Num programa Larry King Live, da TV CNN, o multimilionário do ramo imobiliário e dono de cassinos Donald Trump indicou que pensa seriamente em tentar ser indicado pelo Partido da Reforma candidato a presidente e talvez crie, a certa altura, um mecanismo legal para começar a fazê-lo.
Enquanto isso, o impulso dos ricos e famosos ganha força: o ator Arnold Schwarzenegger, o astro do basquete Charles Barkley e a atriz Cybill Shepherd manifestaram interesse em candidatar-se.
Talvez eles estejam chegando bem a tempo de ressuscitar o interesse do povo por política. O porcentual de americanos que têm votado é menor que o de qualquer outra época desde os agitados anos 20 e, na nova pesquisa de opinião da Newsweek, pouco mais da metade (54%) diz que o sistema bipartidário está "fazendo um trabalho muito bom na solução das questões mais importantes". Para muitos eleitores - principalmente os jovens -, a política tradicional não só perdeu o sentido como é de uma insipidez indescritível. Numa época de paz e prosperidade relativa, a nação está em busca de ação e motivação - e geralmente não encontra nada.
"A política precisa voltar a ser emocionante", diz o provocateur de programas de entrevistas Pat Buchanan, que fez sua parte sugerindo que os EUA deviam ter assinado uma paz em separado, antes da guerra, com a Alemanha de Hitler. "Esta é uma nação enfastiada." É também uma nação em que as vias pelas quais os outsiders podem ser ouvidos se multiplicam - mesmo que os insiders reafirmem o controle que exercem sobre o processo bipartidário agrupando a maioria das primárias no início da temporada. Em consequência, os candidatos tradicionais passam a maior parte do tempo arrecadando dinheiro, geralmente a portas fechadas. Enquanto isso, os que ficam literalmente de fora têm novos meios de ser ouvidos. A TV a cabo e a Internet romperam o controle exercido pela Grande Mídia e dão a qualquer um que tenha opiniões firmes e gosto por espetáculos a chance de se tornar uma presença, se não uma força, na política. "Ross Perot não podia ter existido sem a CNN em 1992", disse o historiador presidencial Michael Beschloss.
"Agora, apenas sete anos depois, pode haver um canal para cada candidato." Além do mais, a época não só permite como parece exigir atitudes insultuosas. "A guerra fria acabou, a economia parece ótima", diz Beschloss. "Não há uma grande crise para definir nossa política no momento." Isso não significa, é claro, que Donald Trump vá ter a chance de instalar um cassino na Ala Oeste. A mesma noção de esgotamento milenar que faz de celebridades candidatos interessantes também torna altamente improvável sua vitória máxima. Desde o verão de 1992 (quando Perot foi o primeiro nas pesquisas de opinião por um breve momento), não tem havido nos EUA uma raiva suficiente para levar um candidato independente à Casa Branca.
Não obstante, uma certa disputa assume contornos na nomeação do candidato pelo Partido da Reforma. Ela contrapõe Trump, que frequentemente consulta Ventura, a Buchanan, que quer ganhar o apoio de Perot. Trump tomou a iniciativa recentemente, criticando Buchanan pelos comentários que fez sobre Hitler. "Ninguém do partido de Pat queria atacá-lo", diz Trump.
"Alguém tinha de fazê-lo, e fui eu." Ventura esbanja elogios a Trump. "Ele não é naturalmente um político de carreira", disse Ventura no programa Meet the Press, da NBC, na semana passada. "Noto semelhanças entre Trump e eu mesmo." Alguém se interessa em saber quem será indicado pelo Partido da Reforma? As Forças de Austin interessam-se. No comitê eleitoral que Bush tem na capital do Texas, elas acompanham atentamente os acontecimentos, e por um bom motivo. Bush e seus principais assessores acreditam que os dois reveses sucessivos infligidos por Buchanan (nas primárias) e por Perot (na eleição de outono) impediram que o pai de Bush se reelegesse, em 1992. Na mais recente pesquisa de opinião feita pela Newsweek, Buchanan ficou com apenas 8% na disputa com Bush (46%) e Gore (38%). Houve 8% de indecisos.
Ainda assim, a memória dos parentes parece ter influenciado a reação de George W. Bush a Buchanan: ciente de que precisa ganhar os partidários de Pat numa eleição geral, o jovem Bush não quis topar uma briga com ele por causa da história da 2ª Guerra Mundial.
O Bando Selvagem gosta de provocar. A retidão política de centro é para os fracos. Buchanan carregou a bandeira da batalha duas semanas atrás, até que Ventura a pegou na Playboy. Seus comentários sobre religião, sexo e tamanho de sutiã motivaram duras críticas do pessoal de Perot. O presidente do partido em fim de mandato, Russell Verney, aliado de Perot, escreveu uma carta exigindo que Ventura "renunciasse" ao Partido da Reforma. Ele respondeu que seus comentários foram usados fora do contexto, mas em sua maior parte revidou os ataques de seus adversários. "Eles provavelmente não me apoiaram em nada quando concorri ao cargo de governador", declarou Ventura à NBC. "Se uma entrevista na Playboy é motivo de vergonha ... acho que eles têm motivos ocultos."
Ainda assim, em sua maior parte o Bando Selvagem garante-se o direito recíproco de todos serem revoltantes. Afinal de contas, a maioria deles tem um livro para vender (ou logo terá). Trump evitou criticar Ventura, dizendo que Jesse não pretendeu desrespeitar a "crença religiosa" em si. Parece que Donald, apesar de seus bilhões, não conseguira encontrar uma cópia da entrevista de Ventura. O surpreendente é que Buchanan veio em defesa de Ventura. Católico romano devoto e conservador, ainda assim Buchanan pediu que a mídia deixasse passar o episódio. "Este é um país livre e ele (Ventura) tem direito à liberdade de expressão", disse. Em Austin, o pessoal adorou o incidente Buchanan-Ventura. "Esses sujeitos do Reforma são mesmo umas figuras, não?", disse um conselheiro de Bush.
"Primeiro eles defendem Hitler, depois atacam Jesus. O que vem a seguir, uma crítica à maternidade?" Buchanan continua firme nos planos de deixar o Partido Republicano e disputar a indicação do candidato pelo Partido da Reforma. Um parecer de autoridades federais permite-lhe receber em torno de US$ 2 milhões para concorrer como independente. Buchanan diz que pode adiar sua saída do Partido Republicano por causa da controvérsia em torno de seu novo livro. "As viagens para promover o livro são muito mais emocionantes do que previ", disse ele secamente. Também se mostrou preocupado com a riqueza de Trump. "Se ele entra (na disputa) e diz que vai gastar US$ 100 milhões, aí é preciso pensar no assunto."
Ainda assim, na pesquisa de opinião da Newsweek, Buchanan é o membro da turma que leva folgada vantagem. Consultados sobre quem seria o candidato mais "eficaz" do Partido da Reforma, 24% dos eleitores responderam Buchanan, 16% disseram que é Perot, 13% apontaram Ventura, 10% responderam Beatty e 6%, Trump. "Em meados do próximo ano, quando todo mundo estiver farto dos candidatos dos grandes partidos, haverá a chance concreta de alguém mais vencer", previu Buchanan.
Fiquem de olho em Trump. Ele tem, conforme se diz nos negócios, uma "história". Quase falido poucos anos atrás, Donald reergueu-se, talvez como o mais poderoso construtor no que ele chama de "mercado imobiliário mais quente do planeta" - Nova York. Trump fala num estilo claro, conciso, e é o tipo de herói empresarial (como Lee Iacocca antes dele) que desperta simpatias tanto em operários quanto em fanáticos por computação.
Se ele concorrer, vai estar bem organizado. Trump tem algumas idéias claras (a serem expostas evidentemente num novo livro): acordos comerciais mais duros, reduções tributárias como incentivo e uma política firme contra a proliferação nuclear. Consta que os endereços da mala direta de seus cassinos têm mais de 6 milhões de nomes, e os aliados de Trump têm feito pesquisas de opinião. Seus colaboradores distribuem panfletos em toda reunião do Partido da Reforma.
"Desta vez", diz o slogan, "é partir pra cabeça." Embora as hostes de Gore e Bradley andem muito atarefadas analisando a disputa das primárias do Partido Democrata, deviam ser previdentes e olhar na direção de Trump: as pesquisas internas por ele encomendadas mostram que Trump atraiu muito mais eleitores democratas do que republicanos.
Beatty é uma ameaça - ou pelo menos um incômodo - para os democratas, mas de modo diferente. Embora ele pareça não estar disputando a indicação a sério, pode facilmente tansmitir com êxito sua mensagem - de que Gore e Bradley são centristas sem força de vontade - e transmiti-la de um modo carismático, capaz de fazer com que os primeiros colocados pareçam mais maçantes do que aparentam ser.
O comparecimento de jornalistas ao discurso que ele fez em Beverly Hills (Califórnia) na semana passada foi assombroso: 150 repórteres do mundo todo para cobrir um evento que tinha 720 simpatizantes.
Embora Beatty insista que não se interessa pelo Partido da Reforma, ao menos parte de sua mensagem combina com a deles, ao denunciar o papel do dinheiro grosso na política. "O partido está à deriva", disse Beatty em seu discurso. "Está escravizado pelo dinheiro grosso e perdeu sua finalidade."
A cotação de Beatty pode estar piorando à medida que Bradley pende paulatinamente para a esquerda, mas Beatty é irredutível, criticando duramente os dois candidatos por terem feito "acordos políticos que deixaram 100 milhões de americanos para trás". Os comentários da imprensa foram geralmente favoráveis. "A reação foi ótima, e ele está mais que nunca no páreo", disse um velho amigo político de Beatty na Califórnia.
Enquanto isso, Trump e Ventura é que atraem as atenções, Donald nos programas Larry King e Dateline, Jesse em Cambridge e no programa Meet The Press.
O momento decisivo da Nova Era pode ter ocorrido no final das perguntas repetidas por Tim Russert. Ventura queria mesmo, na reencarnação, ser um sutiã tamanho 38DD? "Repensei essa opinião", disse ele. "E foi bom repensá-la. Pois, se o sutiã estivesse em você, eu não gostaria." Já era hora de um comercial de TV.

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