Egito espera que viagem da Sagrada Família impulsione turismo
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2000
Por Vijay Joshi 
Sakha, Egito (AE-AP) - Em uma rua lamacenta que termina numa velha igreja, Halim Philobus Mikhail supervisionava o trabalho de encanamento 15 anos atrás, quando a picareta do escavador bateu contra alguma coisa sólida. Limpando a sujeira, ele descobriu uma pedra pesada, longa e larga como um teclado de computador, que não teria importância não fosse uma mancha marrom com o formato do pé de um bebê.
No período de poucas semanas depois do episódio, ocorrido em agosto de 1984, a Igreja Católica Ortodoxa Copta Egípcia proclamou que a marca marrom era uma pegada de Jesus. A partir disso, conta-se uma história de proporções bíblicas.
Um verso na bíblia diz que o bebê Jesus e seus pais, José e Maria, fugiram do para o Egito, saindo de Belém, para escapar da matança ordenada pelo rei Herodes. Mas a bíblia não fornece mais detalhes sobre a residência temporária no país da sagrada família.
Porém, o governo egípcio juntou-se à igreja Copta para publicar um elaborado itinerário que percorre 22 cidades e relata a viagem, cheia de milagres da família pelo antigo reino. De acordo com a igreja egípcia, a família cruzou o deserto num burro, ziguezagueou pelo verde delta do Nilo onde pararam em Sakha. Então, navegaram ao sul para o centro geográfico do Egito antes de voltar para casa em Nazaré.
A tradição copta prega que o menino Jesus, que tinha então pouco mais de um ano, estava com sede e então pisou numa pedra em Sakha, fazendo com que a água jorrasse do local. A divina pegada aparentemente foi preservada na pedra.
Ao publicar os passos da família em conjunção com a chegada do milênio, o governo espera atrair mais peregrinos estrangeiros. Atualmente, a indústria do turismo baseia-se principalmente nas histórias e locais ligados aos faraós e nas praias do Mar Vermelho para seduzir turistas. "Estamos renovando a memória da humanidade. Estamos revivendo o itinerário da Sagrada Família", disse o ministro do turismo Mamdouh el-Beltagui.
A chegada do papa João Paulo II em 24 de fevereiro, para uma visita de três dias, irá enfocar ainda mais a atenção sobre os cristãos no Egito. Cerca de 10% dos 64 milhões de egípcios são cristão. O restante da população é composto por muçulmanos. A maioria dos cristãos é composta por ortodoxos coptas, uma das primeiras formas de cristianismo.
Com o passar dos séculos, os coptas formaram juntos uma tradição, editais papais e fábulas locais da história dos três anos e 11 meses de caminhadas da Sagrada Família. Conta-se que ídolos pagãos caíram na medida em que eles se aproximavam, uma planta aromática floresceu, um árvore dobrou-se em orações, poços surgiram do chão e uma solitária nuvem fez sombra no deserto.
Hoje em dia as igrejas e santuários coptas comemoram cada uma das paradas da família, atraindo dezenas de milhares de peregrinos a cada ano quando se aproxima o dia 1º de junho, data considerada, tradicionalmente, a da chegada da família ao Egito.
Para muitos cristãos ocidentais, para quem há pouca importância os locais sagrados no Egito, aceitar essa história pode ser uma grande demonstração de fé. Mas para os egípcios, é parte do testamento. "Nós vivemos pela fé, não pela mente", diz Louix Kamel, um professor de inglês, enquanto está dentro da igreja de Sakha. Atrás dele, um diácono vestido com uma túnica preta, anda até os ícones geometricamente esculpidos, toca uma cortina bordada com a figura da Virgem Maria e golpeia um ícone duas vezes, num tradicional sinal de reverência.
A história da Sagrada Família começou a tomar corpo no século II, mas a maior parte da lenda é atribuída da São Teófilo, um papa copta do século V. De acordo com a história da igreja, Teófilo teve uma visão na qual a Virgem Maria contou a ele detalhes da viagem da família.
"No ocidente, apenas algumas fontes recebem crédito, tais como provas registradas em livros", diz Stephen Davia, um professor norte-americano que ensina história da igreja no Seminário Teológico Evangélico no Cairo. "Mas as igrejas do oriente dão mais crédito a tradições orais ou visões, porque elas vêm de fontes autorizadas. Isso substitui todas as fontes porque, de alguma forma, vem do próprio Deus."
Nenhuma igreja do mundo duvida que a Sagrada Família tenha visitado o Egito, mas nenhuma outra, além dos coptas, endossa um itinerário exato ou associa a ele milagres como a pegada em Sakha, uma cidade agrícola a 120 quilômetros ao norte do Cairo.
Acredita-se que a pedra estava em exibição até o 13º século, quando desapareceu. "Nós sempre soubemos a respeito da pedra, mas nunca pensei que seria a pessoa a encontrá-la", diz Mikhail
72 anos. "Quando eu vi a cavidade, gritei a pedra de Jesus e todo mundo veio correndo." A pedra é mantida na igreja dentro de uma caixa de vidro, dentro da qual os fiéis colocam pedidos escritos para curas milagrosas, bênçãos e sucesso na vida.
Outro famoso local associado à Sagrada Família é o Deir el-Muharraq, ou Monastério Queimado, no sul do Egito. O fortificado monastério, localizado entre as férteis planícies do vale do Nilo e as mortas montanhas do deserto, inclui uma igreja que, acredita-se, está no local de uma caverna onde a Sagrada Família viveu por seis meses.
Atrás de uma cortina, a igreja de dois cômodos e sem janelas, agora iluminada por lâmpadas fluorescentes, possui um altar onde
acredita-se. Jesus tenha dormido. "Concordo que algumas das histórias sobre a Sagrada Família sejam exageradas, mas nós temos certeza de que Jesus veio ao Egito", diz o padre Philoxenous. "Se você acredita ou não que ele veio a el-Muharraq, não importa. O importante é que ele abençoou o Egito."


