Efeito Trump aumenta procura de brasileiros pelo Canadá
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segunda-feira, 06 de fevereiro de 2017
Celso Felizardo<br>Reportagem Local 

O endurecimento nas políticas americanas de imigração tem feito os brasileiros repensarem seus destinos de trabalho e estudo fora do país. A situação se intensificou na última sexta-feira (27), quando o presidente dos EUA, Donald Trump, proibiu a entrada de refugiados sírios e de cidadãos de outras sete nacionalidades, além de enrijecer as normas para a obtenção do visto. Com o sonho de morar nos EUA cada vez mais distante, uma das principais alternativas para os brasileiros tem sido o Canadá.
Segundo dados obtidos pela BBC Brasil junto à Agência Canadense de Imigração e Cidadania (CIC), 92,4 mil brasileiros pediram permissão para morar temporariamente no Canadá entre janeiro e setembro de 2016. A taxa de aprovação para a entrada foi de quase 90%. De acordo com a agência canadense, os brasileiros são hoje a quarta nacionalidade com mais pedidos de transferência temporária, atrás de chineses, indianos e mexicanos. Especialistas preveem que a tendência é que os números continuem aumentando, principalmente após o efeito Trump.
Em 2012, Bruno Vilas Boas, de 27 anos, morador em Santo Antônio da Platina (Norte Pioneiro), fez intercâmbio e passou seis meses em Toronto enquanto ainda cursava Engenharia Ambiental em Londrina. Além do aprendizado da língua inglesa, ele trabalhou em um restaurante. Segundo os especialistas, essa é uma das maneiras mais fáceis de tentar conseguir um visto definitivo. Vilas Boas gostou do país, mas preferiu retornar ao Brasil ao final do prazo do visto temporário. "Ficar longe da família é complicado, além do mais o frio também é muito intenso", conta, lembrando de uma madrugada que pegou 15º abaixo de zero.
Como fator positivo, ele ressalta a receptividade do povo canadense. "Uma vez fui ao banco e a atendente perguntou de onde eu era. Respondi que era brasileiro e perguntei se ela era do Canadá mesmo. Ela disse que ninguém é de lá mesmo, referindo-se ao grande número de imigrantes", conta. "Talvez esse seja um fator a ser levado em conta pelos brasileiros que buscam o Canadá como destino. Fui muito bem tratado lá em Toronto, que é uma cidade cosmopolita. Não sofri nem presenciei alguma situação de discriminação, por exemplo", acrescenta.
AMPARO
A falta de informação é um dos maiores problemas para quem deseja buscar uma nova vida no Canadá. A bacharel em Direito Suely Anunciação é mineira e mora em Toronto há 15 anos. Ela trabalha em uma ONG de amparo a imigrantes financiada pelo Departamento de Imigração do Canadá. "Ajudamos as famílias ou pessoas recém-chegadas ao Canadá a encontrar moradia, matricular os filhos nas escolas, preencher formulários para receber benefícios do governo", explica.
Suely colabora com a página no Facebook "Comunidade Brasil Canadá" e dá dicas para quem pretende fazer a imigração, mas na ONG atende a imigrantes de todas as partes do mundo. "Como exigência, só podemos atender imigrantes que chegam ao Canadá com o status de residente permanente, incluindo refugiados", ressalta. Para ela, o maior erro é entrar ilegalmente no país. "Isso é muito triste, viver se escondendo, com medo, você não pode exercer os seus direitos por medo de ser denunciado. Não julgo quem faz isso, acredito que cada um tem seus motivos", comenta. "O problema é mesmo a vida que levam. O custo de vida é alto, não dá para juntar muito dinheiro e, se for pego pela imigração, é levado para um presídio. É terrível", completa.
A brasileira já naturalizada canadense costuma dizer que tudo lá funciona como uma "receita de bolo". "Tudo tem uma fórmula, você sabe tudo que é esperado de você. No primeiro dia de aula você já tem as datas de todos os exames e trabalhos a serem entregues durante o curso. Eles são muito organizados. Aqui só subi degraus, ao contrário do Brasil, que você sobe, estagna, às vezes desce alguns", compara.
ADAPTAÇÃO
Ela observa que costumam se adaptar melhor as pessoas não muito presas a laços familiares e que não têm problemas com as baixas temperaturas. "Uma pessoa que não seja apegada demais à família se adapta melhor. A primeira pergunta que uma pessoa deve se fazer é: consigo ficar longe dos meus pais, amigos e familiares? Se você tiver dúvidas para responder, é porque ainda não está preparado para vir", aconselha. Aqueles que gostam do verão na maior parte do tempo também devem repensar os planos de mudança. "Um problema comum é a depressão de inverno, como é chamada aqui. Se a pessoa não gostar nem um pouco de frio, ela já fica mais vulnerável a esse tipo de depressão", adverte. "O Canadá é muito quente também, nunca peguei 42 graus no verão de Belo Horizonte e aqui já. As estações são muito bem definidas, mas curtas. O inverno se prolonga mais", detalha.


