"Efeito Alfonsín" traz vantagens eleitorais
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segunda-feira, 28 de junho de 1999
Por Ariel Palacios, especiais para a AE (assinatura obrigatória) 
Buenos Aires, 29 (AE) - De "responsável pela hiperinflação"
o ex-presidente Raúl Alfonsín passou a ser o "Pai da Democracia". Essa inusitada mudança no título que Alfonsín teve que carregar nos últimos dez anos ocorreu de um momento para outro no dia 17 de junho, quando o ex-presidente sofreu um grave acidente de automóvel onde fraturou dez costelas e teve um pulmão perfurado.
As imagens do presidente que redemocratizou o país e colocou os chefes da ditadura na cadeia sendo levado de maca com sua face sangrando e sua vida por um fio comoveram os argentinos. Tendo no horizonte próximo as eleições presidenciais do 24 de outubro, os analistas políticos começam a afirmar que passou a existir um fator emocional nesta campanha política: o "efeito Alfonsín", que teria parado a tendência de queda nas intenções de voto da coalizão de oposição Aliança UCR-Frepaso e a faria crescer outra vez.
No mês passado diversas pesquisas indicavam que a Aliança contava com 36% das intenções de voto, enquanto que o partido do governo, o Partido Justicialista (também conhecido por "peronista") estava em seus calcanhares com 35%. Mas nas últimas semanas o panorama mudou: uma pesquisa da Mori Argentina indica que a Aliança teria 46% dos votos, contra 35% do peronismo. Ainda ninguém quer atribuir o crescimento ao acidente
mas diversos analistas comentam em off que, conectado ao aparelho de respiração artificial, o ex-presidente será mais útil do que indo de palanque em palanque.
Neste domingo 27, o "efeito Alfonsín" produziu o primeiro resultado concreto: fez com que o governador da província de Rio Negro, Pablo Verani, subisse rapidamente nas pesquisas e fosse reeleito.
Arquiteto-mor da Aliança UCR-Frepaso, Alfonsín estava afastado de sua coordenação desde o começo do ano, quando saiu por considerar que a Aliança estava "moderada demais" na oposição ao governo do presidente Carlos Menem. Apesar de estar fora do comando político, Alfonsín permanecia como "líder espiritual" da coalizão, e nenhuma grande medida era tomada sem consultá-lo.
Às portas da morte, Alfonsín revelou-se uma potencial cornucópia de votos: voltou a ocupar a mídia com a imagem de um homem ético e honesto. Até o acidente, o peronismo usava Alfonsín como um verdadeiro saco de pancadas para atingir a Aliança UCR-Frepaso: a hiper-inflação de 4.700% e sua renúncia seis meses antecipada eram argumentos contundentes para desestimular os eleitores a votar em uma coalizão onde o desafortunado ex-presidente tivesse participação.
Mas tudo mudou: sem coragem de criticar um homem que pode morrer a qualquer momento, os peronistas perderam seu principal alvo. E estão preocupados: "a imagem de Alfonsín está crescendo
e consequentemente, a da Aliança", dizem.
Desde o dia da internação, dezenas de pessoas fazem vigília permanente na frente do Hospital Italiano, em Buenos Aires. Militantes ou simples simpatizantes, todos torcem pela rápida recuperação do ex-presidente.
Além disso foi instalada uma urna onde são depositadas orações e mensagens para Alfonsín.
Neste fim de semana, o hospital também se transformou em um centro de romaria de líderes mundiais: ali estiveram o primeiro-ministro da Itália, Massimo DAlema; o primeiro-ministro da Suécia, Goran Persson, o ex-primeiro-ministro da Espanha Felipe González e o ex-primeiro-ministro francês Pierre Mauroy. Além dos estrangeiros, os políticos nativos foram visitar Alfonsín, entre eles o próprio presidente Carlos Menem e o vice-presidente Carlos Ruckauf.
Uma missa realizada para pedir pela saúde do ex-presidente lotou a Igreja de la Piedad, e quatrocentas pessoas rezaram do lado de fora, na rua. Nas últimas duas semanas, a opinião pública fala de Alfonsín como um tio querido, perdoando-o pela "má sorte" na administração do país. O que a maioria somente lembra é que o homem dentro do Hospital Italiano é o "Pai da Democracia".


