Educadores e Ministério Público questionam novo modelo da EJA

Tema foi debatido em audiência pública na Alep; grupo pede a volta ao antigo modelo, que permitia ao aluno transitar de acordo com seu próprio tempo de construção de aprendizagem

Vitor Struck - Grupo Folha
Vitor Struck - Grupo Folha

Enquanto o Governo do Paraná avança com seu plano de retorno parcial às aulas presenciais, o que pode ocorrer a partir de setembro em toda a rede estadual, diretrizes implementadas pela Seed (Secretaria de Estado da Educação) em 2019 para a Educação de Jovens e Adultos vêm sendo questionadas pelo Ministério Público e consideradas por educadores ouvidos pela reportagem como um novo “supletivo”, modelo de ensino já superado por não atender às particularidades desta população. O tema voltou a ser debatido na reunião remota da Comissão de Educação da Alep (Assembleia Legislativa do Paraná) na tarde desta segunda-feira (10), quando novas sugestões foram enviadas pelo Fórum Paranaense de Educação de Jovens e Adultos.  


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. | Pixabay
 


Em carta enviada à imprensa, o grupo aponta uma completa “descaracterização” da modalidade de ensino ocasionada pelo modelo atual, que adota o cronograma semestral e oferece o aprendizado em "blocos" de disciplinas, diferentemente do organograma que permitia ao aluno transitar de acordo com seu próprio tempo de construção de aprendizagem, aponta o Fórum. 



 

Professor de História em um Ceebja (Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos) de Londrina, Ivonir Rodrigues Ayres, lembrou que o mesmo grupo de alunos possui indivíduos de realidades  completamente opostas. “O adolescente que não conseguiu dar continuidade, mas acabou de ver os conteúdos, o senhor que faz 20 anos que não estuda, a moça que sabe ler com tranquilidade e a que possuí nível rudimentar de alfabetização. Além de pessoas até com deficiências físicas”, lembrou.

  

Para ele, as mudanças não serão responsáveis por acolher os alunos de forma a fazê-los sentirem interesse em dar continuidade às suas trajetórias escolares em busca da emancipação intelectual que os ajude a compreender a realidade. Por outro lado, o novo modelo servirá muito bem para alcançar altos índices de aprovação e promover maior "distribuição de certificados" de conclusão, muitas vezes o único motivo que leva esta população a procurar concluir seus estudos: a busca por recolocação no mercado de trabalho. “O EJA busca formar seres humanos”, sustentou.


Ayres também explicou que a natureza da EJA envolve necessariamente momentos de ausência dos alunos, pois são trabalhadores. Entretanto, "à medida que este aluno se sente acolhido pela escola, ele decide estudar porque percebe que está apreendendo", comemorou. 


Com a pandemia e a suspensão das aulas presenciais, o professor avaliou que a maioria dos seus alunos não conseguiu acessar a plataforma virtual, seja por não ter equipamentos ou internet, seja por deixar estes equipamentos à disposição dos próprios filhos, também alunos da rede pública.   

 

“Que voltemos ao modelo que tínhamos, que também não era perfeito, mas embasado nas diretrizes nacionais e internacionais. Este sim precisa ser melhorado e não eliminado", afirmou. 

  

Procurada pela reportagem, a promotora responsável pela 24ª Promotoria de Justiça de Londrina, Suzana de Lacerda, afirmou que vê com “estranhamento” o fato de não ter sido convidada pelo Conselho Estadual de Educação do Paraná a debater o conteúdo de um ofício que ela mesma enviou ao governo. O documento, que realiza um amplo questionamento sobre estas diretrizes, deveria ter sido avaliado pelos conselheiros nesta sexta-feira. Porém, um pedido de vistas feito por um conselheiro “empurrou” a discussão para setembro. 


O que diz o governo 

A FOLHA entrou em contato com a assessoria de comunicação da Seed, porém não obteve respostas até o fechamento desta edição. Já o presidente da Comissão de Educação da Alep, o líder do Governo no Legislativo, Hussein Bakri (PSD), falou sobre os resultados da reunião desta segunda-feira através de sua assessoria de imprensa.


Bakri disse que as mudanças estão de acordo com a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) e possibilitam a conclusão dos ensinos Fundamental e Médio em cerca de dois anos, três anos a menos do que no modelo com disciplinas individualizadas. Segundo Bakri, o novo modelo “vem tendo sucesso”, uma vez que 42 mil alunos teriam concluído o primeiro semestre deste ano.  




Já para 2021, o deputado informou que ajustes serão feitos conforme sugestões da APP-Sindicato e da comunidade escolar, e que a Seed vai garantir flexibilidade nos horários. Além disso, que haverá o oferecimento de disciplinas isoladas conforme a escala de trabalho de alunos que trabalhem em “funções como motorista de caminhão, cobrador de ônibus e segurança”, disse.  

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