Curitiba - O conceito da Escola da Ponte, criada há 34 anos em Vila das Aves, Portugal, é bastante conhecido entre educadores: nada de séries, aulas, horários, tudo em prol da autonomia do aluno. O conceito de cidades inovadoras, tema de uma conferência internacional realizada pela Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) em Curitiba nesta semana, também é muito difundido em diversas áreas de conhecimento. Mas qual seria a relação entre eles?
José Pacheco, coordenador da Escola da Ponte, esteve na conferência para esclarecer a questão. Em entrevista à FOLHA, ele demonstrou desconforto com a ideia de que o conceito da escola pode ser entendido como ''levar a comunidade para a escola, ou a escola para a comunidade'', meta ingênua almejada por muitos e desenvolvida plenamente por poucos. ''É muito mais que uma simples alteração de rotina'', garantiu. ''Deixou-se de aprender só na sala de aula e se aprende em todos os espaços sociais: as praças, as bibliotecas, as empresas.''
''O que se passa é o seguinte: pessoas vivem num determinado espaço, sejam elas crianças ou adultos, alunos ou pais. Elas sentem problemas concretos: de estrutura, relacionamento, o que for. Essas pessoas, crianças, jovens, adultos, se envolvem na solução de problemas. E esses problemas envolvem tudo: todas as áreas de conhecimento. Ao transformar essa comunidade, a pessoa aprende'', disse Pacheco.
É nesse sentido que o professor defende que o conceito da Escola da Ponte vai muito além de ''escolarizar a sociedade''. ''Escola não é do zero aos 22 anos. É do zero aos cem'', argumentou. Dessa forma, segundo Pacheco, conceitos inerentes ao debate sobre cidades inovadoras, como pesquisa, sustentabilidade e cidadania, podem ser desenvolvidos. Ele cita como exemplo de envolvimento a própria experiência. ''Fui prefeito da minha cidade'', contou.
Como a Vila das Aves é uma comunidade pequena, o professor já foi perguntado se essas ideias poderiam ser aplicadas em metrópoles. ''Já me perguntaram: 'Mas o conceito só funciona no Ensino Fundamental?'. Bem, nós o aplicamos no Ensino Superior. 'Mas só funciona em comunidades pequenas?'. Não posso dizer se funciona, mas nós estamos atuando em grandes comunidades. Estamos em São Paulo, um espaço com 14 milhões de pessoas. Atuamos com núcleos nas comunidades, cada uma com características próprias. Partimos sempre das pequenas comunidades'', exemplificou.
Pacheco comentou que os coordenadores da Escola da Ponte desenvolvem trabalhos em 30 cidades brasileiras, em vários Estados, incluindo o Paraná. Ainda assim, ele não quis divulgar quais são esses municípios e escolas e preferiu não descrever casos concretos de experiências nesses locais. Quer que permaneçam ''invisíveis''. ''O que se torna visível socialmente causa perturbação. Mas dentro de dez anos não vou precisar contar a você que escolas são essas, pois todas já estarão 'visíveis''', afirmou o professor.

mockup