São Paulo, 09 (AE) - Esta é a íntegra do editorial do jornal "O Estado de S. Paulo", publicado na edição de ontem (08), e criticado hoje pelos senadores Pedro Simon (PMDB-RS) e Roberto Requião (PMDB-PR). Sintonia fina no Ministério
Ao escolher o sr. Alcides Tápias para o Ministério do Desenvolvimento, o presidente Fernando Henrique Cardoso demonstrou, uma vez mais, que está disposto a sair do círculo de ferro das indicações políticas e das cotas partidárias tão a gosto dos aliados do governo no Congresso. A escolha foi a melhor possível, sob todos os aspectos.
Trazendo um competente e respeitado empresário para o governo, o presidente não apenas fez aquilo que em Brasília se chama de "escolha pessoal" - como se a nomeação de um ministro não o fosse sempre -, como evitou remanejamentos que certamente despertariam o apetite que os partidos aliados demonstram sempre que há uma dança das cadeiras. Recém-saindo do episódio da demissão do ministro Clóvis Carvalho, do que menos o governo precisava era de uma crise de ambição e ciúmes em sua base parlamentar.
A escolha do sr. Alcides Tápias tem, também, o mérito de pôr em pratos limpos uma confusão propositadamente criada nos meios políticos e alimentada pela mídia a respeito do papel do Ministério do Desenvolvimento. O ministério não foi criado para se contrapor à política de estabilidade, conduzida pelo Ministério da Fazenda, nem para ser um apêndice deste. O Ministério do Desenvolvimento foi idealizado para ser um complemento da ação governamental e, a partir da estabilidade, criar condições de crescimento sustentado para a economia nacional.
Não se concebe os Ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento trabalhando fora de sintonia e será justamente esse o maior desafio a ser enfrentado pelo novo ministro do Desenvolvimento: estimular o crescimento sem comprometer as metas de estabilidade. Para esse trabalho de equipe o sr. Alcides Tápias está preparado: foi o que fez em toda a sua bem-sucedida vida profissional.
Há mais de 40 anos trabalhando no setor financeiro e no setor produtivo, o sr. Alcides Tápias tem a experiência e o conhecimento necessários para implementar uma política de crescimento que não se choque com as metas fiscais e inflacionárias do governo.
Infelizmente, já há políticos se manifestando contra a escolha do sr. Alcides Tápias, justamente porque ele tem essa experiência e esse conhecimento, acumulados no exercício de cargos de direção no Bradesco, na Febraban e na Construtora Camargo Corrêa. O senador Roberto Requião classificou a escolha de "loucura", lembrando que a CPI dos Precatórios constatou que o Bradesco foi comprador final de títulos emitidos irregularmente. Fazendo coro, o senador Pedro Simon disse que a indicação do sr. Alcides Tápias é uma "brincadeira", pois "ele representa os bancos e os empreiteiros, os dois setores mais odiados do País, além do político".
Essa repulsa dos políticos a quem não é de seu meio é uma deformação característica da vida pública brasileira. No fundo, eles estão defendendo seu mercado de trabalho, como políticos profissionais que são. Nos Estados Unidos, é quase uma norma a formação do primeiro escalão de auxiliares do presidente com homens de sucesso na iniciativa privada. Foi seguindo essa tradição que o presidente Bill Clinton escolheu para secretário do Tesouro o diretor de uma grande corretora e o sr. Robert Rubin pôde colocar sua experiência a serviço do país, conduzindo até recentemente uma das mais bem-sucedidas políticas econômicas de que se tem notícia.
No Brasil, a nomeação para o Ministério de um homem de sucesso na iniciativa privada causa espécie e reações despropositadas aos políticos profissionais. Parece estar acima da capacidade desses políticos compreender que pessoas como o sr. Alcides Tápias - um típico self made man, que começou a trabalhar como contínuo, aos 14 anos - têm uma grande contribuição a dar ao País, tanto por sua experiência como pelo fato de não terem sido contagiadas pelos vícios da vida pública. O mal não está na escolha para servir o governo de um homem da iniciativa privada pelo critério exclusivo da sua competência comprovada. O mal está na escolha para postos ministeriais de políticos profissionais que nada fizeram na vida, além de transformar a política em meio de vida, por critérios exclusivos de conveniência política.

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