Se o repertório humano pode ir de Gênesis a Shakespeare, o caso do rapaz acusado de matar o próprio pai, e também a madrasta, numa mansão no bairro do Pacaembu, em São Paulo, pode nos levar aos insondáveis e tantas vezes enigmáticos caminhos da alma humana.
Vi-me mergulhado neste turbilhão porque Alessandra, a madrasta, telefonou-me cinco dias antes de morrer fazendo perguntas sobre segurança privada e fazendo um convite para gravar um comercial de vídeo. Antes que eu respondesse sim ou não, levou quatro tiros calibre 380. Diz a Polícia, o Ministério Público endossa e o Judiciário decretou a prisão, que Gil Rugai, que completou 21 anos de idade dentro da cadeia, há três dias, estava na cena do crime que prostrou a ela e Luiz, seu pai, com outros seis tiros. Conheço todos os representantes da persecução criminal. Acreditam sinceramente no que estão fazendo. A defesa, por conta do professor Paulo José da Costa, meu amigo, e seu filho Fernando, defendem com ênfase a inocência do rapaz. O turbilhão é este.
Paralelo: o considerado Mário Sabino está lançando sua estréia na ficção, ''O Dia em que Matei meu Pai''. O editor-executivo da revista ''Veja'', bom de texto, usa a primeira pessoa do singular e narra: ''Matei meu pai como se mata um inseto... Mais exato seria dizer que matei meu pai como quem respira''. Sabino estabelece a diferença entre quem deseja matar mesmo o pai e o matador que o elimina sem saber, como Édipo, o filho da Laio e Jocasta, na tragédia grega. Descreve o parricida como sendo ''todo branco, o branco do nada que um dia foi tudo''. Ficção e realidade. Assuntos de alma, de cabeça, de sentimentos, impulsos.
Gil: ex-seminarista; treinador de jiu-jitsu (faixa branca); celibatário (''por convicção religiosa''); amante de Beethoven, Mozart, músicas líricas e xadrez; refinado; elegante; leitor de gibis com histórias violentas, como o ''Vagabond''. Temente da solidão. Desviou dinheiro do pai, falsificando a assinatura dele em vários cheques (provado), investindo numa empresa de publicidade para concorrer com o pai, decepcionado com a traição. Luiz, o pai: publicitário bem sucedido, patrimônio rico acumulado gradativamente, com medo do filho, que o ameaçou, depois do episódio dos cheques provocar o afastamento de Gil da gerência financeira (provado). Alessandra, a madrasta: mais jovem do que a mãe de Gil, mais bonita e do mesmo ramo profissional, administradora da empresa com contas publicitárias significativas.
Esses ingredientes, já detectados, e muitos outros mais, que serão acumulados, estarão no processo por homicídio triplamente qualificado, circunstâncias que pesam muito na acusação de assassinato. O futuro vai girar em torno de provas consideradas insofismáveis, ou duvidosas, e os jurados - juízes de fato - decidirão o destino de Gil Rugai. Culpado? Inocente? Só o tempo poderá dizer até que ponto chega a alma humana e seu repertório infinito.

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