Economistas prevêem mais pressão nos preços
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domingo, 28 de novembro de 1999
Por Denize Bacoccina 
São Paulo, 28 (AE) - O aumento de custos das empresas este ano, represado no varejo por causa do baixo consumo, deve ser repassado aos preços com mais força no próximo ano, principalmente a partir de março, quando o mercado deve ficar mais aquecido. O crescimento da economia e o reajuste dos salários, ainda que pequeno e apenas nominal, devem permitir alguma recuperação dos preços.
"O repasse não será integral, mas a diferença entre os custos e o preço final vai diminuir", diz o consultor Cristian Andrei, da LCA Consultores. A consultora Rita Rodrigues, da Tendências Consultoria Integrada, também acha que o aumento de salário vai permitir ao comércio repassar a alta de preços. "O consumidor já está com perda de renda e teve de apertar o cinto; qualquer reajuste de salário vai aumentar o consumo", diz Rita.
O presidente da Associação Brasileira dos Supermercados (Abras), José Humberto Pires de Araújo, concorda que haverá repasse no próximo ano, mas diz que o aumento de custos ocorreu muito mais na indústria do que no varejo. Os supermercados, segundo ele, não tiveram essa pressão de custo porque recusaram os aumentos pretendidos pelas indústrias.
Ainda assim, a lucratividade do setor deve cair de 1,5% do faturamento no ano passado para cerca de 1% este ano. As empresas, segundo Araújo, devem estar divididas em dois grupos: as que se vão reestruturar e aumentar a produtividade e as que vão fazer reajustes diluídos num período extenso. "Mas esses correm o risco de perder mercado", alerta.
Um estudo da LCA mostra que, entre setembro e novembro, aumentou a diferença entre os custos de produção e os preços no varejo. Em setembro, os preços haviam subido em média 12% no atacado e 4,9% no varejo. Em novembro, a alta no atacado acumula 17% e no varejo, 6,1%, uma diferença de 9 pontos percentuais.
Excluindo os custos que não subiram, como aluguel e salários, e a alta prevista para o próximo ano, vai para 20% a pressão de custos acumulada nos dois anos. Como a inflação deve subir menos em 2000, a expectativa é que essa parcela de inflação represada fique bem menor. "Os custos devem subir menos que a inflação na ponta no ano que vem", diz Andrei.
Rita Rodrigues, da Tendências, acha que haverá inflação de demanda em 2000. "Assim que houver aumento de dinheiro na economia, com o reajuste de salários que estão ocorrendo, o aumento de custo será repassado aos preços", afirma.
Analisando os índices de inflação, ela concluiu que a inflação mais recente é realmente pontual e causada por aumentos nos preços dos combustíveis e da carne, como alega o governo. Mas, olhando o acumulado do ano, ela concluiu que os aumentos são mais uniformes.
Rita comparou a variação da inflação no segmento total dos comercializáveis (que podem ser importados e exportados) com esse grupo. Excluindo os preços de carros novos e os alimentos semi-elaborados (por causa da carne) e in natura, que concentraram os maiores aumentos nos últimos dois meses, ela concluiu que as variações estão muito próximas.
No período de janeiro a outubro, a variação nos preços totais dos comercializáveis foi de 9,2%. Excluindo esses itens, o aumento foi de 8,5%. "Essa diferença de 0,7 ponto porcentual é muito pequena para se concluir que não estejam ocorrendo pressões altistas generalizadas", diz a consultora.
O coordenador do Índice de Preços ao Consumidor ( IPC) da Fipe, Heron do Carmo, apesar de ter reajustado para cima sua previsão de inflação de novembro e dezembro, acha que a situação está sob controle. Ele afirma que o aumento é provocado por fatores específicos, como o aumento do álcool.


