Economistas incluem educação em debate sobre desenvolvimento
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domingo, 18 de julho de 1999
Por Denise Neumann 
São Paulo, 19 (AE) - Um grupo de influentes economistas e empresários brasileiros deixou hoje de lado as tradicionais discussões sobre taxa de juros, tamanho do déficit público, funcionamento ideal da taxa de câmbio, inflação e outros termos comuns do dia-a-dia dos grandes debates econômicos. Em seu lugar
eles resolveram olhar outras questões que atrapalham o crescimento brasileiro e impedem que o País alcance as sonhadas taxas de crescimento anual superior a 5%.
Educação, criminalidade, desigualdade social, transporte de bens e de pessoas, tecnologia, tamanho das cidades foram puxados para o primeiro plano dos debates. E quase tudo virou estatística no seminário "Um Novo Enfoque para o Crescimento Econômico", promovido pela Faculdades Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec).
Nesta chamada microeconomia, economistas brasileiros e estrangeiros concordaram que o baixo nível de educação impede um ritmo mais ágil de crescimento, que a criminalidade impõe custos à sociedade e que a redução da desigualdade é, ao mesmo tempo, condição e benefício do crescimento. As divergências vieram na defesa das soluções e em alguns momentos elas apareceram com a mesma empolgação dos debates sobre regime de câmbio, taxa de juro,capital externo etc.
O professor José Alexandre Scheinkman, surpreendeu ao informar que o Brasil gasta 5,5% do PIB em educação, porcentual superior aos gastos de Argentina, Coréia, China, Chile, Cingapura e Hong Kong, países com o qual o País é frequentemente comparado e cuja população trabalhadora possui uma educação média (número de anos na escola) superior à brasileira.
"O problema é que o Brasil gasta mal os recursos destinados à educação", diz ele, defendendo que o redirecionamento de parte dos recursos destinados ao ensino superior para o ensino primário e secundário. "O problema também é qualidade da educação primária", observou o economista Eduardo Andrade, da Fundação GetúlioVargas (FGV-RJ).
Em um polêmico debate sobre causas e soluções para a criminalidade, o professor do Ibmec, Carlos da Costa, sustentou que a criminalidade brasileira é baixa, dada a brutal desigualdade de renda do País. Se o Brasil transferisse uma parcela da renda dos 10% mais ricos para os 40% mais pobres, o nível de desigualdade seria reduzido pela metade e isso permitiria uma queda de 35% nos níveis atuais de criminalidade.
No Brasil, segundo o professor Eduardo Andrade, do Ibmec
também a desigualdade de oportunidade é um obstáculo. Ele defendeu o sistema de bolsa-escola - que beneficia famílias com renda inferior a meio salário-mínimo, como um instrumento para garantir o acesso à escola e, em consequência, uma melhor oportunidade para as crianças em relação aos pais.
Para encontrar uma rota de crescimento sustentado, Scheinkman ponderou que o País também precisa aumentar sua poupança interna. As taxas de crescimento per-capita do Brasil tem sido baixíssimas: 0,14% ao ano nos últimos 20 anos. Na Coréia, de1960 a 1998, ela chegou a 7% ao ano.
Para mudar essa situação, diz, é preciso desenvolver o capital humano (com mais educação), fazer crescer o capital físico (com o investimento em proporção do PIB saindo dos atuais 20% para 25% no mínimo) e aumento da produtividade.
Para o crescimento da taxa de poupança, diz, o governo precisa controlar seu déficit público porque ele representa uma despoupança (como se o governo gastasse parte do que a sociedade investe) Para Scheinkman, o País não pode mudar seu sistema educacional em seis meses, mas pode tomar medidas decisivas para melhorar o regime fiscal.
O ex-presidente do Banco Central, Affonso Celso Pastore, da platéia, lembrou que a estabilidade de preços continua fundamental. "Sem ela, você destrói a possibilidade de um crescimento sustentado", ponderou.


