Economistas descartam mudança no câmbio argentino a curto prazo
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quarta-feira, 19 de maio de 1999
Por Márcia de Chiara 
São Paulo, 20 (AE) - Economistas não acreditam que o governo argentino irá mexer no sistema de conversibilidade do câmbio no curto prazo, até as eleições de outubro. No médio prazo, no entanto, se ocorrerem mudanças no regime cambial argentino, o Brasil poderá ser afetado com uma série de desvalorizações cambiais, que terão impactos também em outros países da América Latina.
Para o economista José Márcio Camargo, que participou hoje, em São Paulo, do seminário que tratou das perspectivas para a economia brasileira em 1999, realizado pelo consultoria Tendências, além desse impacto na política cambial do Brasil e dos países vizinhos, ele acredita que, se a Argentina mudar o sistema cambial, o ganho de competitividade dos produtos brasileiros em relação aos argentinos acaba.
Segundo o economista, outro efeito prejudicial que uma mudança no câmbio argentino provocaria no Brasil seria a desconfiança em relação a economia. Isso poderia provocar uma saída de capitais ou até a mudança de rota do dinheiro que viria para o País. Com isso, o Brasil teria de aumentar os juros para atrair o dinheiro de fora. O reflexo, explicou Camargo, seria a recessão na economia brasileira.
"Não vejo perpectivas de desvalorização da moeda argentina no curto prazo", afirmou o ex-presidente do Banco Central (BC), Gustavo Loyola, que participou do seminário. "Mas se houver um desvalorização, o que eu não acredito, será prejudicial para o Brasil porque o País está saindo de uma crise agora. "A Argentina não é a bola da vez", afirmou o economista.
O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, que também participou do evento, acha "cedo" para considerar a Argentina como a bola da vez. "Eu não acredito numa mudança cambial na Argentina no curto prazo, muito menos num ano eleitoral", afirmou.
Segundo Maílson, todos os partidos que estão na disputa eleitoral estão comprometidos com a conversibilidade. "A conversibilidade na Argentina é algo que tem um apoio social amplo e qualquer candidadto que propuser o fim da conversibilidade corre risco de perder votos." Na avaliação do ex-ministro da Fazenda, ninguém tem dúvida de que esse regime de câmbio, fixado por lei, é insustentável mais para frente. O próprio ministro Domingo Cavalo, criador desse sistema, já admitiu que em algum momento a Argentina terá de rever o câmbio. Além disso, relembrou Maílson, os argentinos não conseguiram, assim como no Brasil, fazer as reformas que compensassem o câmbio fixo.
Ajuste - A Argentina têm hoje mecanismos automáticos de ajuste para se proteger de uma fuga de capitais. Se houver uma saída de dinheiro, explicou o ex-ministro da Fazenda, automaticamente os juros subiriam e a economia teria uma contração, que promoveria o ajuste. "A dúvida não é quanto a rapidez que eles possam se ajustar, mas quanto à sustentabilidade social e política do ajuste", disse Maílson. É que uma saída rápida de capitais da Argentina provocaria uma recessão tão profunda que a própria conversibilidade perderia apoio social e político.
"Se houver uma grande saída de capital estrangeiro, não há condições de sustentar o sistema de câmbio fixo", afirmou Maílson. Ele ponderou, no entanto, que, ao longo do tempo, a Argentina montou uma espécie de "rede de proteção". Isto é, o país tem linhas de crédito com bancos estrangeiros que podem ser acionadas na eventualidade de uma saída de capitais.
Na avaliação de Maílson, a Argentina é importante para o Brasil, mas não tão importante quanto Brasil é para a Argentina, do ponto de vista comercial. Uma crise na Argentina, que reduzisse as importaçõpes, dificultaria a obtenção de superávit comercial mais alto pelos brasileiros, que nas contas do economista, deverá ser de US$ 2 bilhões neste ano.
"A situação é mais complicada para a Argentina do que para o Brasil", afirmou Maílson. Segundo ele, depois que o Brasil "pulou a fogueira da desvalorização cambial", o País passou para um regime cambial, em tese, com proteção a ataques especulativos, uma vez que a taxa de câmbio é o ajuste para enfrentar essas situações. "A Argentina não tem essa arma e a própria taxa de juros naquele país é estabelecida pelo movimento de capitais." O Banco Central argentino, explicou Maílson, não tem soberania para aumentar juros e defender a conversibilidade. Na Argentina, é o próprio mercado que faz esse ajuste e, nesse sentido, os argentinos são mais vulneráveis do que os brasileiros, concluiu.


