Buenos Aires, 21 (AE) - Poucas vezes um tema econômico provocou tanto consenso na Argentina: a paridade um a um entre o peso e o dólar obteve nos últimos dias um apoio generalizado dos principais economistas do país. O apoio partiu de economistas vinculados ao governo e à oposição, e refletiu-se em duas jornadas de tranquilidade na Bolsa, após uma quarta-feira preocupante, onde o índice Merval chegou a cair 4,9%.
O governo insistiu em que a desvalorização não ocorrerá: "Não se mexerá na conversibilidade e no regime cambiário, que demostraram uma grande solidez diante da crise mexicana, asiática, russa e brasileira", afirmou o chefe de assessores do ministério da Economia, Miguel Kiguel.
Segundo ele, "a Argentina tem reservas internacionais mais do que suficientes".
Um sinal que tranquilizou o governo foi a colocação de um bônus por 200 milhões de euros (US$ 213 milhões) a uma taxa anual de 7,125% a um prazo de três anos. Kiguel interpretou a colocação como "uma demonstração de que não existe nervosismo nos mercados. Se não fosse assim, não teríamos conseguido essa colocação".
"O próximo governo não abandonará a conversibilidade", afirmou categoricamente Jorge Remes Lenicov, cotado para ser ministro da Economia, no caso de vitória de Eduardo Duhalde, candidato do partido do governo, o partido peronista, à presidência do país. Lenicov considera que uma desvalorização causaria um aumento imediato dos preços.
Adalberto Rodríguez Giavarini, economista da coalizão de oposição Aliança UCR-Frepaso, sustentou que "atualmente seria uma irresponsabilidade abandonar a conversibilidade, porque traria mais inconvenientes dos que benefícios". Giavarini disse que "defenderemos a estabilidade sempre, mais além de que é preocupante ter um déficit de US$ 6 bilhões e que ainda não chegamos ao equilíbrio fiscal".
Não só economistas, mas também empresários defenderam a paridade um a um enfaticamente: "hoje, o tipo de câmbio está fora de discussão", afirmou Osvaldo Rial, presidente da União Industrial Argentina (UIA).
"Seria loucura mexer na conversibilidade", sustentou o industrial. No entanto, Rial disse que a economia enfrenta "um sério problema de competitividade" e que a desvalorização acaba sendo colocada como opção tendo em vista "a recessão de mais de oito meses que está se transformando em depressão, a queda das exportações e o consumo".
Além do apoio interno à paridade, nesta sexta-feira o ambiente financeiro respirou aliviado ao ler a notícia de que o FMI também a respaldava. A frase "para a Argentina, a conversibilidade é como um casamento" proferida pelo economista-chefe do FMI, Michael Mussa, foi o salva-vidas mais esperado. O economista continuou sua analogia sustentando que "como nos bons casamentos, deve-se persistir, embora em alguns momentos venha a vontade de maior liberdade de ação". Segundo Mussa, será difícil abandonar a paridade nos próximos oito anos.
"Cavallo quer o dólar a cinco pesos". Desta forma, o polêmico ex-vice-ministro da Economia, Carlos Rodríguez, comentou as declarações do ex-ministro da Economia, Domingo Cavallo, sobre a flutuação do peso, publicadas no Financial Times. Apesar do desmentido de Cavallo sobre a entrevista ao jornal britânico, Rodríguez sustenta que Cavallo pretende desestabilizar o governo do presidente Carlos Menem, seu inimigo político, "da mesma forma em que desestabilizou o governo do ex-presidente Raúl Alfonsín com comentários sobre a Economia".
Segundo Rodríguez, que mesmo fora do ministério ainda é um fiel respaldo do ministro da Economia, Roque Fernández, "Cavallo quer que a conversibilidade caia, e que o dólar fique a cinco pesos, para depois ele voltar e reduzi-lo a três pesos o dólar".

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