Rio, 20 (AE) - Os economistas Luiz Roberto Cunha e José Márcio Camargo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), criticaram hoje a declaração feita pelo presidente do Banco Central, Armínio Fraga, de que a inflação neste ano pode ficar "um pouco acima" de 8% - número escolhido como meta pelo Ministério da Fazenda. A declaração foi feita ontem (19) em São Paulo.
As críticas foram feitas em seminário sobre déficit e desenvolvimento promovido pela Câmara Americana de Comércio, em que também participaram os economistas Fábio Giambiagi, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e José Julio Senna, ex-diretor do BC e da MCM Consultoria. "Acho que ele está falando de coisas que não entende muito", criticou Cunha, para quem a meta de 8% já foi adotada com "certa folga".
Na interpretação de Cunha, a declaração pode significar que o governo vá autorizar novos reajustes de combustíveis, para arrecadar mais dinheiro para o Tesouro, mesmo que isso signifique uma alta maior da inflação. "Vamos estar brincando com fogo, pelo lado político e pelo lado social", afirmou o economista da PUC, para quem a medida pode significar inflação anual "perigosamente" perto dos 10%. "Temos hoje o risco de ver outra boa idéia prejudicada", afirmou.
Analista da consultoria Tendências, José Márcio Camargo acrescentou que a declaração do presidente do BC pode provocar aumento da inflação no primeiro semestre do próximo ano. Para Camargo, o mercado pode interpretar que o Ministério da Fazenda está menos preocupado com a manutenção das baixas taxas de inflação do que antes.
Camargo afirmou que o fenômeno aconteceria porque os agentes econômicos reajustariam os preços ao consumidor no primeiro semestre de 2000, para repassar a alta dos aumentos do atacado, causada neste ano pela desvalorização do real e das tarifas públicas - o que ainda não aconteceu, em sua opinião. "Se as tarifas aumentam 100%, o efeito imediato sobre os preços ao consumidor é negativo, porque as pessoas terão menos dinheiro no bolso", afirmou. "Mas isso vai ter efeitos mais à frente", avisou.
Defensor da política de metas de inflação, o economista José Julio Senna não deu importância à previsão de Fraga. "Não tem nada de mais", afirmou Senna. Para ele, ao dizer que a inflação ficaria pouco acima dos 8%, Fraga quis indicar que a taxa ficaria alguns décimos mais alta. "Talvez 8,3%", arriscou.
Juros - A instabilidade econômica da Argentina deve ser um freio à redução dos juros no Brasil, afirmou no seminário o economista Fábio Giambiagi, do BNDES. Segundo Giambiagi, a taxa Selic, que serve de base para as outras na economia brasileira, deve ficar entre 18% e 19% em dezembro.
Para o ano que vem, previu Giambiagi, se a inflação for reduzida, a taxa deve ficar entre 10% a 12%. "Ainda é bastante elevada, mas não impede a retomada da atividade econômica, que já vem ocorrendo", afirmou o economista.
Ele lembrou ainda que a diminuição da quantidade de dinheiro que é recolhido compulsoriamente pelo Banco Central sobre os depósitos dos bancos, aliada à queda da inadimplência, "talvez" gere uma queda nos juros cobrados ao tomador final de empréstimos.

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