Buenos Aires, 26 (AE) - O Mercosul encontra-se em uma zona de risco. Politicamente, o Brasil e a Argentina querem o sucesso do bloco regional. Mas uma coisa é querer e outra é poder sustentá-lo, já que os objetivos e interesses dos dois países são totalmente distintos, disse o economista Carlos Pérez, diretor executivo da Fundação Capital e um dos autores do estudo mais recentes e completo sobre a "difícil e crítica convergência macroeconômica no Mercosul".
Em entrevista à Agência Estado, Pérez explicou que, agora que o intercâmbio comercial deve ficar equilibrado, por causa da desvalorização do real, e a Argentina contará com um novo quadro de dirigentes, em função das eleições presidenciais, seria importante iniciar uma bateria negociação em busca de uma convergência macroeconômica na região e sem olhar para atrás. Caso contrário, acrescentou o economista, "independentemente da boa vontade dos governos, os conflitos comerciais continuarão latentes, prejudicando de forma constante os setores produtivos dos países membros do bloco".
Segundo o economista, a Argentina nunca teve intenções de transformar-se em líder do bloco, mas busca ganhar tempo para conquistar outros mercados. "O Brasil, pelo tamanho de mercado que representa, passou a ser uma espécie de laboratório para os produtos argentinos", disse Pérez. Por sua vez, acrescentou, o Brasil quer fazer do Mercosul uma espécie de país-maior para poder negociar com outros blocos ainda maiores. "Não vejo, por esse lado, conflito de objetivos. O problema são as grandes diferenças macroeconômicas", afirmou.
De acordo com o estudo "Convergência Macroeconômica no Mercosul: uma caminho crítico", da Fundação Capital, os quatros países, além dos que venham a integrar-se posteriormente, precisam discutir e resolver de imediato dois problemas. Um, a criação de instituições ou tribunais supranacionais para arbitrar os conflitos comerciais sem a intervenção política de presidentes ou ministros, e, finalmente, o estabelecimento de metas de convergência macroeconômica. "A intervenção política dos presidentes nos conflitos comerciais mostrou que a solução para os problemas é apenas efêmera e eles acabam voltando", explicou o economista. "A diferença cambial, que mostra claramente a fragilidade do real em relação ao peso (dólar), beneficiará constantemente o Brasil."
A posição da Fundação Capital em relação aos conflitos e diferenças no Mercosul é compartilhada pelo recém-eleito presidente da Argentina, Fernando de la Rúa. Nas declarações sobre o Mercosul, feitas antes e depois das eleições presidências da Argentina, o líder da Aliança tem afirmado que a convergência macroeconômica na região é uma das metas que o seu governo perseguirá. "Não adianta apenas encontrar mecanismos de compensação toda vez que uma país vier a desvalorizar a sua moeda, já que ela acabaria cobrindo apenas o sol com a peneira. Elas (as compensações) podem ser adotadas transitoriamente, mas não de forma definitiva, porque não minimizariam o risco latente dos conflitos comerciais provocados pelos desequilíbrios macroeconômicos no bloco", explicou Pérez. No estudo de mais de 300 páginas, a Fundação Capital explica que essa harmonização macroeconômica poderia ser feita em várias etapas, começando por um intercâmbio de informações, passando por consultas mútuas e terminando na própria coordenação macroeconômica e em decisões centralizadas, o maior grau de integração a partir da cessão das decisões a organismos supranacionais, como um Banco Central único e independente para decidir a política monetária do bloco. Entre as vantagens desse processo, o estudo cita a estabilidade econômica, a disciplina para reduzir as pressões setoriais, a credibilidade interna e externa e a previsibilidade, que permitiria aos parceiros do bloco fazer estimativas melhores da oferta e de demandas globais dos agregados econômicos.
O presidente Carlos Menem disse que a Argentina vem propondo essas metas há muito tempo e que o Brasil sempre se recusou a discuti-las. "As condições para avançar nesse sentido estão dadas. Precisamos apenas consolidar algumas instituições e criar outras. Acho que o Brasil está agora disposto a discutir", afirmou Menem. Para o presidente argentino, que deixa o poder no dia 10 de dezembro, o Mercosul é a única opção para enfrentar o fortalecimento de outros blocos econômicos no mundo.

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