Economista vê Fraga como arma contra a especulação
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sábado, 06 de fevereiro de 1999
Por Paulo Sotero Correspondente 
Washington, 06 (AE) - A descrição do presidente nomeado do Banco Central Armínio Fraga, como "discípulo de George Soros" feita pelo "The New York Times", e apresentações semelhantes repetidas por outros órgãos da grande imprensa internacional, deixaram duas pessoas nos Estados Unidos perplexas e um tanto indignadas. Uma delas é Robert A. Johnson, 42 anos, executivo que começou sua carreira no Federal Reserve, o banco central norte-americano, e foi assessor nas comissões de Orçamento e de Finanças do Senado.
Johnson acredita que os comentários negativos feitos sobre a nomeação de Fraga refletem duas coisas que não são nada inocentes. "O presidente Cardoso está politicamente mais fraco (por causa da crise) e, nessas circunstânicas, qualquer mudança desse tipo, independente da qualidade do escolhido, é tema de controvérsia", disse ele.
O segundo ponto levantando por Johnson refere-se a interesses econômicos. "Muita gente nos EUA tem interesse em ver a crise no Brasil se aprofundar para poder comprar ativos ainda mais baratos", afirmou, acrescentando que levantar suspeitas infundadas sobre Fraga para tentar desacreditá-lo, porque ele trabalhou com Soros, é uma maneira de tentar fazer isso.
Johnson não é ingênuo em política e política financeira. Baseado na sua experiência no governo dos EUA, ele disse que não afasta a possibilidade de, conscientemente ou não, pessoas no Brasil estarem participando de um jogo que não compreendem bem "e fazendo oposição a Fraga para benefício de interesses empresariais estrangeiros que não se importariam em ver o País afundar para comprar barato". Conspirações - Aos que alimentam teorias conspiratórias sobre intervenção externa na nomeação do novo presidente do BC, como Thomas Ferguson, de 49 anos, professor de Ciência Política da Universidade de Massachusetts em Boston. Ele aconselha que atentem para a frieza da reação do secretário do Tesouro dos Estados Unidos. Rubin evitou comentar diretamente a nomeação de Fraga. "Está claro, pela cobertura da imprensa, que algumas das pessoas mais bem conectadas nos EUA foram surpreendidas pela decisão de Cardoso, pois ela não era bem a que se esperava", disse ele.
"O comentário de Rubin foi um pouco distante talvez porque ele não esperasse a nomeação de uma pessoa tão hábil e tão claramente comprometida com o Brasil", afirmou Ferguson. "Rubin poderia ter dito que a escolha é um grande avanço, que Cardoso escolheu um sujeito brilhante e um operador hábil, mas disse apenas que não era um retrocesso; não foi hostil, mas acho que ele sabe que, com Armínio no BC, vai ser mais difícil dizer o que fazer ao Brasil".
Segundo o professor da Universidade de Massachussets, a nomeação de Fraga foi recebida de maneira circunspecta também no Federal Reserve de Nova York e por uma razão que deveria tranquilizar as pessoas que manifestaram reservas à decisão de Fernando Henrique no Brasil. "Eles sabem, no Fed de Nova York, que Armínio não é um clone de seus economistas".
Robert Johnson, que levou Fraga para trabalhar com o megainvestidor e megaespeculador em Nova York, em 1993, assegurou que Armínio não é um homem de Soros. "Eu não apenas acho como sei que ele não é", disse Johnson, na quinta-feira. Johnson, que é amigo do futuro presidente do BC desde a época em ambos estudaram na Universidade de Princeton, deixou o Fundo Soros de Investimentos em 1995. Personalidade própria - Tendo feito sua independência financeira nos anos em que trabalhou com Soros, Johnson dirige hoje uma fundação beneficente em Connecticut que levanta dinheiro para financiar programas de estudo e prática do jogo de xadrez em escolas públicas em áreas de baixa renda, como forma de desenvolver o pensamento estratégico das crianças.
Nos últimos seis anos e até a semana passada, ele e Fraga deram um curso a quatro mãos na Universidade de Columbia, em Nova York, sobre o mercado internacional de capitais e o desenvolvimento econômico. "Fraga é ele próprio, é um brasileiro que ama seu País, é um economista de grande talento e grande conhecedor do mercado e apenas trabalhou com Soros", disse Jonhson. "Obviamente, George Soros não teve nada a ver com a nomeação de Fraga para o BC e não creio que ele sinta que terá qualquer influência junto a Fraga", acrescentou. "Se pensa assim está totalmente iludido e é um tolo, pois eu posso garantir que a organização de Soros não terá nenhuma vantagem no Brasil e não terá sequer acesso ao Armínio".
Para Ferguson, a insinuação contida nos relatos da imprensa internacional de que o economista brasileiro seja um agente de Soros "é um completo absurdo". Ferguson também é amigo pessoal de Fraga, mas é insuspeito para falar por outras razões. Pessoalmente, concorda com algumas das idéias do megainvestidor sobre a reforma do sistema financeiro internacional. "Mas conheço Fraga o suficiente para afirmar, sem hesitação que, intelectualmente, ele é totalmente independente", disse o professor que também é colaborador regular do jornal "Le Monde" "Diplomatique" e da revista "The Nation", uma publicação que reflete as opiniões da esquerda americana. "Ele aprendeu economia no Rio e em Princeton, e não com George Soros", disse. "E parece óbvio que as políticas que o governo brasileiro está executando, na área de juros por exemplo, são claramente distintas daquelas que Soros advoga". Mundo real - O temor manifestado pelo senador Jader Barbalho (PMDB- PA) de que, ao nomear Fraga para o BC, o presidente Fernando Henrique Cardoso "colocou a raposa para tomar conta do galinheiro" surpreendeu William Greider, jornalista e escritor americano que denunciou o papel da especulação financeira num livro sobre os riscos da globalização, publicado no Brasil no ano passado pela Geração Editorial sob o título "O Mundo na Corda Bamba - Como Entender o Crash Global".
Greider, um crítico do Fundo Monetário Internacional (FMI), conversou com Fraga quando estava preparando o livro. Mas ele teve a reação oposta à do senador do Pará ao saber da troca de comando no BC. "O Brasil terá agora no Banco Central um homem que conhece como as coisas acontecem no mundo real do mercado financeiro e estará em melhores condições para se proteger contra os especuladores".
Sobre isso Johnson acrescentou uma informação. Ele disse saber, como fato, que Fraga resistiu às apostas contra o Brasil em seu trabalho com Soros e teve discussões com outros diretores por causa disso. "Fui sócio de Soros durante vários anos e sei que ele não faz as pessoas ter suas opiniões nem assume as opiniões de outras pessoas." O professor afirmou que muitas vezes discordou de George Soros na época em que trabalhou com ele e sabe que o mesmo aconteceu com Armínio e várias outras pessoas. "É um absurdo inferir que Soros terá qualquer influência sobre Armínio", concluiu.


