Washington, 23 (AE) - Um dia depois de o Fundo Monetário Internacional (FMI) ter anunciado uma recuperação mais rápida da economia global, o economista-chefe do Banco Mundial (Bird), Joseph Stiglitz, apresentou estatísticas mostrando um futuro menos otimista - especialmente para os mais pobres.
"Neste ano, 48 países, que representam 35% da população do mundo em desenvolvimento, sofrerão uma queda na renda per capita", disse ele nesta quinta-feira (23). "A situação é especialmente crítica para a América Latina, que continua sofrendo choques depois da crise", acrescentou.
Stiglitz (citado com frequência para o Prêmio Nobel de economia) falou diante de uma platéia de empresários e banqueiros, reunidos no Congresso Mundial de Desenvolvimento Econômico - um evento paralelo à reunião anual do FMI e do Bird, que começará depois de amanhã.
Sua palestra deixou evidente as divergências entre as duas instituições, quanto às lições da crise e as políticas que deveriam ter sido adotadas para superá-la.
No mesmo encontro, estava o economista-chefe do FMI, Michael Mussa, que na véspera anunciara a primeira revisão otimista de suas previsões em dois anos. O Produto Interno Bruto (PIB) mundial crescerá 3% neste ano (mais que os 2,3% previstos em maio) e a economia brasileira sofrerá retração de apenas 1% ou talvez nenhuma (em vez de uma queda de 3,8%).
"Pode-se dizer que a crise financeira global está terminando", disse ele, ao lembrar que "quanto maior a queda de um país, mais espetacular pode ser sua volta". Como exemplo, citou o caso da Coréia do Sul - cujo PIB real caiu 5,8% em 1998 e deverá crescer 6,5% este ano.
Para Stiglitz, essas estatísticas, além de desviarem a atenção do verdadeiro problema, são enganosas. O PIB da Coréia e de outros quatro países do Sudeste Asiático pode estar crescendo agora, disse ele. Mas "ainda é 17% menor do que teria sido" se suas economias não tivessem sido atingidas pela crise de 1997, acrescentou.
Taxas de câmbio mais estáveis, juros mais baixos e bolsas de valores voltando à normalidade - disse Stiglitz - "dão uma sensação de alívio, especialmente para quem especula no mercado".
Mas segundo ele, a crise certamente não acabou para aqueles que ficaram desempregados ou perderam seu poder aquisitivo. "A pobreza ficará conosco por algum tempo", disse.
Stiglitz comparou a crise com os recentes terremotos na Turquia e em Taiwan. Como edifícios importantes que caíram, ele citou a Indonésia, a Rússia e o Brasil.
Mas o importante, disse, era estudar aqueles que ficaram em pé: China e Índia. "Ficaram em pé justamente os dois países que exercem controle de capitais", disse. A primeira lição da crise
concluiu, é que "fluxos de capitais de curto prazo tem um impacto enorme sobre a instabilidade econômica e contribuem para a pobreza".
Hoje, políticas de controle de capitais parecidas àquelas adotadas pelo Chile e até pela Malásia estão sendo revistas, com outros olhos. Stiglitz também citou a China ao criticar países que tentaram sair da crise elevando os juros - medida, aliás, apoiada pelo FMI. "Os chineses seguiram regras básicas da economia ocidental: quando há recessão, estimule a economia com medidas fiscais e não aumente os juros", disse. Mas admitiu que o caso do Brasil (que elevou os juros) é diferente.
Tanto Mussa, quanto Stiglitz concordam que depois dessa crise certamente virão outras. Só que não há um só remédio para evitá-las. "A resistência em se adotar uma ação coletiva afeta ainda mais os países emergentes, que terão que buscar proteção sós."

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