Economista diz que recessão e dólar a R$ 1,70 podem reverter quadro
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terça-feira, 23 de fevereiro de 1999
Por Suzana Santos 
Rio, 24 (AE) - A concretização de um cenário de inflação abaixo de 15% e de não indexação da economia exige recessão profunda e o recuo da cotação do dólar a um patamar de, pelo menos, R$ 1,70 até, no máximo, início de abril, na opinião do economista e professor da Pontifície Universidade Católica do Rio (PUC), Luiz Roberto Cunha. Ele explicou que estas duas variáveis segurarão os preços e criam uma perspectiva de reversão do desaquecimento de mercado a partir do segundo semestre.
Para o economista, o risco de acontecer pressões inflacionárias insustentáveis e a volta da indexação da economia está atrelado à demora do recuo do preço do dólar, como aconteceu nos países do sudeste asiático. Cunha ressaltou que se a cotação da moeda-norte americana ficar acima de R$ 1,90 por mais quatro meses será inevitável a indexação e retorno da inflação em patamar muito acima dos 15%, que têm sido previstos por muitos especialistas.
Este segundo cenário não é o mais provável para o economista, apesar de haver um risco concreto. Os juros reais altos já criam, para Cunha, a base para o cenário de recessão profunda, que freia a pressão por aumento de preços. Ele lembrou que a recessão é um sacrifício menor do que a volta da inflação e indexação, que provocam perdas muito mais graves para a sociedade, como a perda da noção de valores reais.
Para o especialista, existem argumentos que favorecem ao controle das pressões sobre a cotação do dólar como, por exemplo
o fato de estar previsto o fechamento do acordo do Brasil com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que deve garantir a entrada de cerca de US$ 9 bilhões no País. Este acordo promove também um clima da maior tranquilidade nos mercados, segundo Cunha.
O economista lembrou ainda que é esperado o retorno de linhas de crédito de bancos estrangeiros para o refinanciamento de empréstimos de importadores brasileiros, que têm vencimentos previstos para o decorrer deste ano. Cunha lembrou que a rolagem destes financiamentos, que devem somar mais de US$ 30 bilhões somente em amortizações, é fundamental para evitar pressões sobre o câmbio. A liquidação destes empréstimos dificultaria o recuo da moeda norte-americana, segundo o especialista.
Pelo lado das exportações, a tendência é de que os resultados positivos na balança comercial apareçam a partir de meados de março com a venda dos produtos agrícolas. Outro fato positivo citado pelo economista é a não existência de problemas com instituições financeiras no País e com a saúde do setor produtivo e empresarial, diferentemente do que ocorreu nos países do sudeste asiático e dificultou a retomada da estabilidade e recuo do dólar.
O economista destacou também que atuação firme do Banco Central, ditando regras para o mercado. Cunha lembrou que cria-se a partir daí um clima de tranquilidade. Outra questão levantada pelo especialista é perspectiva de retomada das privatizações. Ele lembrou que estes negócios atraem investimentos estrangeiros e, por consequência, dólares entram no País, minimizando pressões no câmbio.
A concretização da pior hipóteses, no entanto, não deve ser vista como o fim do poço para o Brasil, segundo Cunha. "O Brasil não vai quebrar", destacou. O que pode acontecer é a volta da indexação, para evitar quebra de contratos, e o controle de uma inflação bem mais elevada. "Já fizemos isto antes", lembrou. "Não é a melhor alternativa, mas, se tiver de acontecer, deve ser feito", concluiu.


