São Paulo, 21 (AE) - Economistas independentes e do governo, principais canditatos às eleições presidenciais argentinas e até o Fundo Monetário Internacional (FMI) são unânimes ao afirmar que a Argentina não pode, não deve e nem vai mudar o plano de conversibilidade, que mantém o peso e o dólar na paridade de um por um desde abril de 1991.
Em entrevista à AGÊNCIA ESTADO, por telefone de Buenos Aires, o economista Carlos Pérez, diretor executivo da Fundação Capital, disse que a Argentina tem duas únicas saídas para melhorar a sua competitividade e, com isso, afastar o fantasma de uma eventual desvalorização de sua moeda. Uma, via desvalorização do peso e, a outra, via deflação dos custos.
A primeira, explicou Pérez, é impraticável, porque implicariam custos elevadíssimos que os argentinos não estão dispostos a pagar. "Para melhor os seus preços relativos, o México teve de incrementar o valor do dólar em 100% na crise de dezembro de 1994, e o Brasil teve de corrigir em 50%, em média, o preço do dólar", disse Pérez.
Para ele, se a Argentina quisesse melhorar os seus preços relativos, teria de fazer uma correção de 500% a 1.000% do câmbio por meio de uma desvalorização nominal, mas isso jogaria por terra toda a estabilidade econômica conseguida na última década. "A cultura hiperinflacionária ainda está na mente dos argentinos, razão pela qual, a Argentina não tem outra saída, a não ser via deflação dos custos", acrescentou Pérez.
Para conseguir isso, explicou o economista da Fundação Capital, será necessário iniciar a desregulamentação do mercado de trabalho, baixar os preços dos produtos não transáveis (serviços), congelar os gastos públicos, reformar o Estado e a co-participação federal e de Províncias. Ou seja, é necessário reduzir o custo argentino, que o governo não está fazendo agora em função da aproximação das eleições, marcadas para outubro deste ano. "Não sobra mais tempo para isso." O economista acredita que nos próximos 10 ou 12 meses, já com o novo governo, será possível implementar essas medidas para deflacionar os custos. "Depois desse período, será necessário observar se o novo governo está ou não atacando as reformas estruturais necessárias. Caso contrário, sobrará apenas a desvalorização", disse Pérez.
Pérez insiste em afirmar que a Argentina não está em um estado de emergência ou de explosão. "Quando o México desvalorizou o peso, em 1994, o déficit de sua conta corrente era de 9% do PIB; quando o Brasil decidiu mexer no câmbio, o seu déficit de conta corrente estava entre 8% e 9% do PIB. Não é o caso argentino", argumentou o economista. De acordo com ele, a Argentina pode estar hoje na luz amarela, com um déficit na conta corrente de 5% do PIB e um déficit fiscal de 3% do PIB, mas não está na luz vermelha.
"Claramente, a explosão do México teve a ver com a pressão externa e a do Brasil com a questão fiscal", disse Pérez. "Reconheço que a Argentina tem um problema a resolver, que é o da competitividade, mas não é com a desvalorização que vai fazê-lo", afirmou. "Tenho minhas dúvidas que a desvalorização tenha melhorado o Brasil, mas o Brasil não é Argentina", justificou.
Alguns números apresentados pelo economista parecem sustentar a tese da não necessidade da desvalorização do peso, mas o mercado também parece não querer entender isso. Segundo Pérez, o atual governo garante hoje os financiamentos da dívida pública e privada, do déficit fiscal e comercial e de caixa para pelo menos os 6 primeiros meses do novo governo. "Tanto a dívida pública como a privada não passam de US$ 15 bilhões", disse Pérez.
Depois, acrescentou, o sistema financeiro tem excesso de liquidez de mais ou menos 20 bilhões de pesos (US$ 20 bilhões), as reservas se mantêm no patamar de US$ 25 bilhões desde dezembro do ano passado e a Argentina não tem passivos de curto prazo que provoquem uma crise cambial, como a ocorrida no México e no Brasil. "Portanto, não há fundamento para afirmar sobre uma eventual explosão cambial e muito menos para criar pânico", disse. "Se me perguntassem se faria depósitos em pesos a um prazo, digamos, de seis meses, não hesitaria em fazê-lo", disse o economista. Até o dia 18, último dado oficial, as reservas argentinas estavam em US$ 24,75 bilhões.

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